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Djalma Santos
Por Antônio Falcão
No Brasil, há o preconceito de não ter preconceito racial. Isso é claro e
inconfesso. E está no futebol que é, disparado, o mais retinto dos
esportes. Na Copa de 1958, Didi – único negro a jogar desde o início da
competição – só entrou porque Moacir, o reserva, também era preto. E, sem
base científica alguma, a cartolagem pensava: Os negros não têm controle
emocional. Várias vezes, Djalma Santos – o ala que anulou o sueco Skolund,
o melhor ponta dessa Copa do Mundo – foi vítima de racismo. Certa vez, em
um estádio paulista, alguém o xingou de crioulo sujo. E, quando ele fazia
um arremesso manual, o mesmo cretino que o apupara lhe atirou algo, e ao
fazê-lo, sem querer, também sacudiu junto um anel. Sereno, Djalma recolheu
a peça, foi ao alambrado, entregou-a ao racista e disse sorrindo um
elegante “tudo bem”.
Esse paulistano, nascido Djalma dos Santos, em 27 de fevereiro de 1929,
fez-se atleta profissional graças a um acidente que o impediu de ser
piloto de avião – pelo gosto do pai, que foi soldado de polícia, ele seria
militar. Djalma era operário calçadista, estudava à noite para ser aviador
civil e batia bola em times do bairro da Quarta Parada, em São Paulo,
capital. Mas Santos, como o tratavam, queria mais. E a Portuguesa de
Desportos o fez center-half em 48. Dessa posição, ele se deslocou para a
lateral-direita com a chegada de Brandãozinho ao clube do Canindé. Outros
craques dessa Lusa eram Julinho e Pinga. Em 1952, eles deram ao Brasil o
campeonato pan-americano jogado no Chile, um certame nacional de seleções
estaduais aos paulistas e o torneio Rio-São Paulo – este, bisado em 55 – à
própria Portuguesa do treinador Osvaldo Brandão.
Desde cedo, Djalma se notabilizou como o primeiro brasileiro a fazer da
cobrança de lateral um cruzamento – e os atacantes do seu time corriam
para a área adversária a fim de escorar o passe, contando sempre com a
força de suas mãos. A essa altura, o ídolo negro da Lusa do Canindé já era
titular absoluto da lateral-direita na seleção nacional. E aprimorava o
saudável hábito de ser um beque ofensivo, indo com prudência, agilidade e
precisão ao ataque.
Por isso, em 1954, na Suíça, mesmo com o escrete derrotado, Djalma Santos
foi eleito o maior ala do mundo – sendo o único brasileiro a entrar na
seleção desse Mundial. E se revelara batedor de pênalti – contra a
Hungria, perdendo por 4 a 2, o primeiro gol brasileiro fora dele, de
penalidade máxima. Em 58, na Suécia (onde só fez o último jogo –
exatamente contra os donos da casa –, foi campeão e escolhido como o
lateral-direito da Copa), Djalma esbanjou lealdade, disciplina, saúde e
rapidez. Nele, sobretudo, sobressaía a técnica apurada, que o levava a
dribles dentro da pequena área, a fazer embaixadas e outros lances de
efeito. Para coroar esse 1958, ele casou com Mercedes, que lhe daria uma
filha, hoje médica.
Na Lusa, Djalma ainda é visto pela crítica como o craque do clube no
século 20. E lá ficou até maio de 1959, data em que se transferiu para o
Palmeiras. No Parque Antarctica viveu o auge da carreira. A começar pelo
título estadual no ano de estréia. A seguir, em 60, também vencendo a Taça
Brasil, feito repetido por ele e o clube em 1967. Assim, quando seu nome
foi visto entre os que iam a Copa do Mundo de 62, o povo o escalou para
ocupar uma das alas. E o técnico Aimoré Moreira, para trazer o troféu de
bicampeão, satisfez a vontade geral. Nessa Copa, pela terceira vez
consecutiva, Djalma seria aclamado o lateral-direito do planeta. Com
apenas 1,71 m de altura e aos 33 anos, ele era ágil e ótimo no cabeceio,
quase não perdendo bolas aéreas. Ainda atuou duas vezes no Mundial de
1966, na Inglaterra, encerrando a estada no escrete em 68, com 98 jogos
oficiais – Taffarel e Dunga foram os jogadores brasileiros que mais
vestiram a camisa do selecionado nacional, até 2004.
Além desses títulos, eis outros ganhos por Djalma no Palmeiras: os
estaduais de 1963 e 66, torneios externos (México e Itália em 63) e
nacionais (Rio-São Paulo/65 e Roberto Gomes Pedrosa/67) – este, o atual
Campeonato Brasileiro –, sendo vice da Libertadores da América de 60 e 68.
Afora Djalma, no alviverde paulistano cintilavam as estrelas de Ademir da
Guia, Julinho, Valdir de Moraes e Djalma Dias – nomes que ainda fazem
sonhar. De 1959 a 68 – o tempo que ele esteve no Parque Antarctica –
existiu a primeira Academia palmeirense, que era de fato a única equipe a
se contrapor àquele supertime santista de Pelé, Carlos Alberto, Gilmar,
Mauro, Pagão (ou Coutinho) e companhia.
Após a 498ª partida pelo Palmeiras, em 68 Djalma quis parar. No entanto, a
pedido do Atlético Paranaense adiou o intento. E foi para Curitiba, onde –
com Bellini, seu parceiro de escrete, também em fim de carreira – nesse
ano fez-se vice-campeão no Paraná. E em fevereiro de 1971, após fazer
rubro-negro o título estadual de 70, parou efetivamente de jogar. Ano
seguinte, Djalma Santos foi técnico do próprio Atlético. E a seguir
treinou times na Bolívia e no Peru. Pela experiência acumulada, desde
então esse treinador viu que os pupilos ideais eram as crianças e aceitou
ir para a Arábia Saudita para ensinar futebol aos meninos. O mesmo fazendo
na Itália, até a repatriação.
No Brasil, ele só soube o quanto era ídolo depois de ter deixado as
canchas. E a partir de uma enquete feita pelo Palmeiras com 10 mil
torcedores. Djalma teve quase 75% dos votos como o lateral-direito
alviverde de todos os tempos – ficando Cafu com 19% e em segundo plano.
Outro reconhecimento: em júri popular, a aguerrida massa atleticana deu a
maioria dos votos para fazê-lo o melhor atleta do rubro-negro paranaense
no século que passou. E no resto do mundo Djalma Santos até hoje também é
lembrado.
Trabalhando com crianças – em especial, carentes –, ele virou funcionário
da mineira Prefeitura de Uberaba, onde coordenaria as escolinhas de
futebol. Lá, com a eficácia que o identificara, tocou o projeto Bem de
rua, bom de bola, reunindo garotos e garotas pobres da cidade. Porém,
Djalma condicionando: só joga quem estuda. E nisso residiu o mérito dessa
sua lida socialmente gratificante.
Mesmo na velhice, o ex-craque não parou de bater bola. Na folga dos
domingos, ele reunia outros coroas para um racha. Após a pelada, pescando
no Rio Grande, falava solidário que as relações de trabalho no futebol
ainda são de senhor e escravo. Ou dizia causos do seu tempo. Um deles, de
1951, quando caiu de uma mureta no mar de Bósforo, na Turquia, e deu
vexame. No entanto, quase não caía em campo, era bem-posto, com preparo
físico. E esbanjou disciplina: Djalma Santos jamais foi expulso de campo.
Por temperamento e categoria, ele não precisava apelar.
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