Morreu o Primeiro Presidente do Palestra Itália
Uma notícia lacônica, pequenina, simples, modesta, olvidada nas seções comuns dos diários que anunciam, com a sua costumeira algidez, a morte ou o nascimento de todos que foram algo de habitual na vida rotineira, deu-me a infausta novidade: morreu Ezequiel Simone, dentro de sua simplicidade, assim como transcorrera os seus dias mais vividos da plácida existência.
Muitos palestrinos da velha guarda, muitos palmeirenses dos mais acesos, não se lembram, sequer, nem o seu nome, pois, homem pobre, homem trabalhador, homem que vivia com o suor da sua fronte, cumprindo com devoção e sem espalhafato o seu dever, como desportista e como chefe de família, não possui nem o seu retrato no salão nobre do Palmeiras, pois ninguém - nem mesmo eu que sempre mais me bati pelos coitados do que pelos condecorados de dinheiro ou de títulos que somente tem valor no mercado da vaidade coletiva e balofa - teve a idéia de lhe recordar os feitos, de por em relevo as virtudes de primeiro guia dos destinos da Sociedade que hoje tem irradiações de fama continental em todos os cantos do mundo.
São essas as
ingratidões dos famosos clubes de futebol, que lembram com carinho e com saudade
de um craque qualquer, o qual recebeu honrarias e dinheiro no período áureo da
sua carreira, proporcionando mais
momentos de desencanto e de tristeza aos fãs,
do que resultados bonitos e gaudiosos, mas que olvidaram - os
historiadores de clube de futebol e os narradores de coisas antigas do nosso
futebol como meu amigo Mazzoni - os homens que "FIZERAM" a sociedade e, por
conseguinte, criaram o adequado ambiente para que as tais de celebridades
futebolísticas também se "FIZESSEM"!
Lembro-me bem de Ezequiel Simone. Era baixote, gordionho, sempre sorridente, pacato, bom observador, com idéias de socialista avançado, tipo burocrático do "travet" habitual. Mas não era. Era pedicuro. Tinha independência da ingrata profissão.
Ao apelo que fiz, por intermédio do "Fanfula", adolescente ainda, com a cabeça cheia de cabelos e de empresas audazes, o Ezequiel aderiu, gostosamente, como simples curiosidade de homem que sempre ansiava para algo de novo na vida estagnada da nossa cidade, há 30 anos.
Veio. ouviu a palavra candente de Luiz Cervo, cheio de fogo e de energia, sonhando grandes coisas para aquele pequeno clube de futebol que se iniciava com ciclópicos programas mas sem um centavo sequer na caixa social; ouviu, com simpatia, as minhas ironias, traduzindo o meu inato "espírito de porco", que ainda, por desfastio dos meus colegas de diretoria, no Palmeiras, não me abalou: ouviu com atenção, as serenas ponderações dos irmãos Vaccari; e, no fim, como o mais velho da turma, no meio daquela mocidade vicejante, que tudo ignorava para fundar uma sociedade, com competência, com critério, sem alardear empáfia inoportuna, nos ensinou como se iniciava uma sociedade: os propósitos, os sócios, a sede social, os estatutos, o campo, os jogadores os primeiros subscritores, a primeira assembléia para nomeação dos dirigentes, os sócios fundadores, enfim, "abriu-nos os olhos".
Lembro, eu dei o meu palpite: porque não poderia ser ele o nosso Presidente, o Presidente do conselho provisório? A assembléia, pela palavra do Luiz Cervo, aceitou o alvitre por aclamação, e o Ezequiel Simone que não entedia patavina de futebol, a Associação desportiva, de velódromo, do Paulistano, do Tutu Miranda, do Zé Rubião, de "off-side", e de "Kick" a la Charles Muller, entrou para o Palestra Itália, porque sentia-se bem, e contagiado com o entusiasmo daqueles moços que tinham muitas idéias nas cabeças aloucadas, mas que tinham também os bolsos vazios.
Ezequiel Simone foi Presidente de gabinete, do nosso Palestra. Quem tudo fazia, em outros setores, era Luiz Cervo, que, se tivesse dedicado a metade da sua energia e da sua inteligência a uma indústria, então, como dedicava o tempo e o pequeno ordenado que recebia ao Palestra, seria hoje, um argentário graúdo, cheio de dinheiro e cheio de empáfia, como o são, agora, muitos seus correligionários daquela época.
Mas foi utilíssimo ao Palestra. Foi o bom senso, foi o guia honesto, foi o conselheiro ponderado no meio da nossa "mocidade turbulenta e despropositada", foi o "nosso pai" com sabedoria e com paciência, com tática e com diligência.
Morreu aos 76 anos, pobre, esquecido, modestamente, sem honrarias, sem um epitáfio qualquer, sem um discurso, talvez, sem uma flor. Com esta dúvida, eu coloco sobre o túmulo de Ezequiel Simone, com a alma e com toda a minha afetuosidade, a sincera e devota flor da minha saudade!
Vicenzo Ragognetti