Caso do nome Palestra Itália

 

 

Com a devida vênia, abaixo transcrevemos o Oficio que o Palestra Itália dirigiu em 20 de maio último ao exmo Sr. Dr. Carneiro da Fonte, dd. Chefe de Polícia do Estado, acerca da resolução tomada por S. S. quanto ao caso da denominação da Sociedade Esportiva Palestra Itália.

 

 

Eis o interessante documento, na integra:

 

 

"Com referência ao Oficio de 24 de abril p.p, no tocante as modificações dos estatutos sociais da S. E. Palestra Itália, sugeridas por essa D. Chefatura, de acordo com a lei em vigor, permitimo-nos algumas considerações sobre as quais chamamos a benévola atenção de v.s.

 

Como bons brasileiros compreendemos e acatamos ardorosamente o espírito do Estado Novo, cujas leis estão transformando a fisionomia da Nação em todos os setores da vida moral, material e patriótica. A obra gigantesca iniciada pelo insigne estadista que governa o Brasil, o presidente Getulio Vargas, e pelos seus valorosos colaboradores, não podia esquecer os núcleos esportivos, onde se reúne a parte juvenil da comunhão nacional para infundir-lhe um sopro de brasilidade.

 

Embora no início, essa obra gigantesca que quer um Brasil brasileiro, começa a dar resultados primorosos. Do nosso canto seguimo-la com as nossas esperanças e engrandecemo-la com a nossa colaboração entusiasta de moços que vêm os destinos do Brasil iluminados por nova luz. Consideramo-nos partículas, embora modestas, mas tenazes e convictos, dessa cruzada grandiosa que está, escrevendo páginas inflamadas na história da renovação nacional, e aplaudimos, pois, sem reservas, todos os atos que têm por objetivo a consolidação do nosso sentimento nacionalista.

 

Esse espírito de brasilidade fez sentir a necessidade de novas leis, cuja aplicação, entretanto, no caso do Palestra Itália, merece particular analise por uma série de considerações de ordem estritamente psicológica. Falamos como diretores dessa sociedade, mas a plena consciência de nossos deveres de cidadãos brasileiros.

 

O Palestra Itália, teve origem nitidamente colonial, ou melhor, brotou no seio da coletividade italiana radicada em nosso território. Sua historia é idêntica a das entidades congêneres fundadas por outras coletividades, como o São Paulo Athletic, Germânia, Portuguesa, Vasco da Gama, Sírio, Espanha, Wanderers, American, Anglo, etc. Surgiu em 1914 e prosperou rapidamente, atingindo proporções vastíssimas como número de sócios, patrimônio e atividades esportivas. O apoio da colônia italiana foi-lhe salutar. Como as outras sociedades igualmente estrangeiras-colônias, desempenhou papel saliente na vida esportiva e social, base fundamental da nossa expansão econômica, em que se operou a localização das grandes correntes imigratórias.

 

A política de Campos Salles com relação a instrução em massa do elemento italiano em nosso Estado, devia forçosamente criar uma série de problemas complexos de ordem étnica social e material, com estranhas características. A canalização das correntes de trabalhadores agrícolas para os núcleos e as cidades em formação do interior do Estado e para os bairros da Capital, modificaram de forma sensível o panorama da sociedade paulista, dando-lhe aspetos interessantes e originais.

 

Ao lado das sociedades esportivas floresceram as de beneficência, culturais, recreativas, religiosas, maçônicas e até de classe. Os grandes movimentos paredistas registrados nos primeiros lustres do século corrente, foram, em boa parte, resultado desse espírito associativo que devia, mais tarde, ter repercussão profundas no surto da economia industrial  do País. O mesmo se diga com relação aos outros setores. A cidade cresceu a vista d'olhos sob o impulso de um progresso vertiginoso. Assim, nas várias zonas do Estado. Entre 1896 e 1910, desembarcaram no porto de Santos, cerca de um milhão e meio de imigrantes, representando os de procedência italiana, 70 por cento. O que foi essa colaboração no caldeamento da raça brasileira, pelos seus cruzamentos de sangue, pela fusão dos interesses e pelo incremento geral é notório. Melhor que o nosso apressado comentário falam as páginas dos sociólogos e economistas.

 

O Palestra Itália, é um produto legítimo desse ambiente e dessa fase. Amparado pela colônia italiana desenvolveu-se prodigiosamente. Com ele e por ele o esporte nacional iniciou um capítulo novo, abrindo as portas de seus "grounds" às grandes massas populares. O futebol, até então não passara de um esporte da "elite" e de colegiais com afluências selecionadas mas diminutas.

 

O Palestra Itália realizou o milagre das multidões espetaculares, provocou ciúmes e rivalidades benéficas, ampliou o número dos clubes e, conseqüentemente, dos esportistas e dos torcedores. Coelho Netto, numa conferência memorável, batizou-o "O Motor do Esporte Brasileiro”.

 

Fundado por italianos, dirigido por italianos, seus quadro sociais só aceitavam italianos, nos primeiros anos. Seus estatutos e suas atas eram redigidos na língua de Dante. Era o clube da Colônia Italiana, assim como o Vasco era dos portugueses do Rio; a Portuguesa, dos lusos de São Paulo; o Germânia, dos alemães; o Sírio dos sírios, assim por diante. Nenhuma sombra de preconceitos nacionalistas perturbava o tranqüilo andamento do clube. Falar italiano, nas reuniões e redigir as atas em italiano, era, para os palestrinos da primeira fase, simples e natural. Os ingleses, os alemães ou os sírios, faziam outro tanto. Neste tempo, a Municipalidade paulista publicava em duas línguas, os seus editais, e os governos estaduais mandavam traduzir para o italiano e publicar em jornais italianos, suas mensagens.

 

Com os anos, essas características foram se enfraquecendo. A falange dos fundadores envelhecia ou morria. Vieram os filhos, e com eles, o uso da língua portuguesa tornou-se uma necessidade. Muito antes da regulamentação oficial, o Palestra Itália foi agitado por diversas crises de transformação, que se processaram por etapas, gradualmente, obedecendo ao impulso lógico do fenômeno de assimilação. Os Estatutos passaram a ser redigidos em português e as restrições quase totalmente eliminadas . "Abrasilerou-se" sem imposições, seguindo a evolução natural das coisas, que lhe impunham uma personalidade brasileira. Campeão Paulista de 1920, representou São Paulo nas competições interestaduais. Elemento de incontestável preponderância, liderou as atividades esportivas locais, fornecendo seus homens aos quadros paulistas e brasileiros, para os jogos internacionais. Duas vezes em excursão oficial ao estrangeiro, viajou como clube brasileiro e representou o Brasil à sombra da bandeira auriverde. Sua origem italiana colonial não constituiu positivamente, um entrave para suas atividades nacionais esportivos, pois desde a fundação, embora dirigido por cidadãos italianos, nunca representou a Itália nem a Colônia como expressão nacional, mas sempre, o Brasil e São Paulo, como parte integral da família esportiva brasileira.

 

A origem italiana colonial do Palestra é, hoje, uma recordação histórica. Não eram portugueses natos, algumas entre as mais eminentes figuras das Bandeiras? E que importância pode ter a origem se a prática dos fatos, dos fatos palpáveis e das realizações concretas, e nitidamente brasileira como função e finalidade? São imprescindíveis, pois, diante do que o Palestra Itália representou e representa como realização na família esportiva brasileira, as modificações dos Estatutos sugeridas por essa D.D. Chefiatura? A palavra Itália que e parte da nossa denominação gentílica é uma expressão puramente sentimental desprovida de qualquer significação ou sentido político; uma forma platônica que representa uma tradição e uma homenagem perene ao esforço dos pioneiros que fundaram o clube. A palavra Itália não foi posta por despeito ao lado da palavra Palestra, mas por uma delicada lembrança ao país natal dos fundadores do clube. Assim como acontece com o batismo dos diversos Estados e cidades da América do Norte e de cidades brasileiras, mexicanas e argentinas e de muitas ruas e praças de metrópoles desses mesmos países.

 

Suprimir essa palavra significaria magoar imerecidamente os velhos italianos que fundaram o clube, que estão, radicadas entre nós, há dezenas de anos, perfeitamente integrados no nosso ambiente e no nosso espírito; é praticar uma descortesia chocante para com um país amigo que na expansão do maior ciclo econômico da nossa história colaborou generosamente conosco, dando à. família brasileira, para se tornarem pais de bons brasileiros, um milhão de seus filhos.

 

O mesmo diga-se - senhor Chefe de Policia - com referencia ao uso das cores dos uniformes dos jogadores e dos escudos, pois nenhuma analogia política possuem com as respectivas da bandeira Italiana, devido à distribuição absolutamente oposta. Em matéria de cores, como expressão de nacionalidade, a ordem da distribuição e fundamental. Veja-se as cores do Fluminense; branco, verde e vermelho; as das bandeiras nacionais do México e da Hungria; branco,verde e vermelho; e as das bandeirinhas que a Prefeitura do Distrito Federal desfralda nos Postos de Socorro, na Praia de Copacabana; verde, branco e vermelho. Nenhuma ligação vemos em tudo isso com as cores da bandeira italiana no sentido político.

 

Refere-se, ainda, o ofício de Vossa Excelência aos postulados italianos que norteavam a nossa sociedade; aos privilégios de nacionalidade contidos em nossos Estatutos e as ligações com entidades  estrangeiras residentes no estrangeiro.

 

A rigor, o Palestra Itália nunca manteve ligações de qualquer espécie com entidades estrangeiras ou residentes no estrangeiro, pois sempre esteve sob o controle e das disciplinas das hierarquias esportivas nacionais, das quais depende e a cuja orientação obedece. Os postulados que nortearam a primeira fase da sua existência deixaram de existir com a transformação radical dos seus estatutos atuais no espírito e na letra. Ao mesmo tempo esforça-se na medida do possível para um intercambio espiritual entre italianos e brasileiros na, certeza de realizar obra sã e patriótica, acompanhando nesse terreno o que vem sendo realizado pelas entidades culturais, cientificas e artísticas italianas e brasileiras e pelos órgãos diplomáticos dos dois países.

 

No que concerne o conteúdo do artigo 68 e mister acrescentar que o mesmo se enquadra nitidamente no espírito da sugestão aconselhada pois, em caso de dissolução do clube o patrimônio é destinado ao Hospital Umberto I, gloriosa e benéfica instituição de caridade que vem prestando imenso beneficio a toda a população paulista, sem distinção de nacionalidade, fundada, como o Palestra Itália, por um grupo de cidadãos italianos. O Hospital Umberto I - em virtude das novas leis em vigor - acaba de ser nacionalizado, ingressando, portanto, no rol das sociedades brasileiras.

 

Pedindo a Vossa Excelência, em nome dos velhos cidadãos italianos ligados ao clube pelos sentimentos inquebrantáveis da alma e da tradição, a permissão de manter o nome Itália na nossa denominação, não praticamos, cremos, ato de diminuição do nosso espírito de brasilidade: Dirigimos este pedido afim de que seja reconsiderado o oficio de 24 de Abril p.p., em nome dos nossos dez mil associados, à consciência jurídica de Vossa Excelência, na certeza de que mais uma vez, o espírito acolhedor da nossa classe dirigente está a altura de suas gloriosas tradições.

 

 

(*) Sociedade Esportiva Palestra Itália

 

 

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