Palestra Itália - da Fundação ao Primeiro Título

Santos, 17 de janeiro de 1882. O navio "Colombo" acaba de chegar da Europa lotado de passageiros mas ainda mais de esperanças. Entre todos aqueles que desembarcaram e pela primeira vez pisaram o solo nacional estava Caetano Tozzi, o primeiro dentre os italianos a se registrar nos serviços brasileiros de imigração. Assim como as centenas de milhares de seus patrícios, Caetano trazia uma enorme vontade de trabalhar.

E ela seria mesmo necessária. A abolição da escravatura andava a passos largos e já se sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela seria assinada, o que viria a acontecer seis anos depois. O País precisaria, então, de uma nova mão-de-obra, e nada melhor que esta fosse a dos europeus e, sobretudo, a dos italianos, que chegavam ao Brasil trazidos pela boas novas de que, aqui, em se plantando tudo dava.

A vida de nosso personagem não foi melhor nem pior do que a da maioria dos "oriundi", como eram conhecidos os italianos que deixavam sua pátria. Nos quase 50 anos em que viveu no Brasil, este imigrante pôde mostrar o espírito aberto às coisas de nosso País sem deixar de lado o amor pela velha, querida e então já distante Itália.

Mas houve um único detalhe, um pequeno item que marcou para sempre o nome de Caetano Tozzi e de uns poucos outros italianos: empresário, ajudou no parto da industrialização nacional; em troca, 15 anos antes de morrer, teve o orgulho de poder ser um dos fundadores do Palestra Itália. Ele não foi o único, é verdade, mas foi um deles.

Muito Semelhante à história de Caetano Tozzi é a dos italianos que se agrupavam, no começo do século, para matar, ou melhor, para amenizar as saudades da Itália. Todos os domingos, eles lotavam o Teatro São José para assistir a espetáculos líricos, que depois cantarolavam, ao entardecer, nos bondes de uma São Paulo, à época, ainda envolta em neblina e constantes garoas. Mas nem só de música vivia a colônia; o esporte também aparecia com destaque entre os "oriundi".

Em 1914, o hoje nacionalmente conhecido Clube Espéria se chamava "Societá dei Canottieri" (Sociedade dos Remadores). Lá, se jogava a bocha e, como dizia o próprio nome, se praticava o remo. Mas o futebol começava a despertar paixões, já que há muito era praticado na Itália com o nome de "calcio".

Quatro italianos - Luigi Cervo, Ezequiel De Simone, Luigi Emanuelle Marzo e Vicenzo Ragognetti - eram os mais animados dentre aqueles que moravam no então totalmente italiano bairro do Brás. Eles se encantaram com a visita do Torino e do Pro Vercelli, times do futebol italiano, e resolveram que os filhos da Itália e os filhos dos filhos da Itália também precisavam de uma equipe de futebol.

Mal o Torino e o Pró Vercelli embarcaram de volta à Itália e os quatro italianos — Luís Cervo, Ezequiel Simone, Luís Emanuelle Marzo e Vicente Ragonetti — arregaçaram as mangas no intuito de fundar o clube com o qual tanto já sonhavam. Não haveria mesmo momento mais propício, já que toda a comunidade italiana se encantara com a presença das duas equipes patrícias.

Na época, circulava em São Paulo um jornal, o "Fanfulla", órgão oficial e porta-voz voltado aos italianos que trazia, sempre, notícias da Velha Bota. Como Ragonetti era um de seus fundadores, não teve dúvidas em conclamar a presença de todos os conterrâneos na edição do dia 19 de agosto de 1914. O texto era o seguinte: "Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de calcio (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro para a reunião de fundação do Palestra Itália". O nome do clube, como se vê, já estava decidido antecipadamente.

Muito se esperava, mas pouco se conseguiu. Muitos pensaram que o clube teria, como os outros da época, recitais e bailes. Mas não: os quatro rapazes estavam decididos que o carro-chefe do Palestra Itália seria o futebol, e disso não abririam mão. Após muita discussão e o impasse a que se chegou, foi desfeito o engano. Os descontentes e decepcionados se foram, e uma nova reunião foi marcada para a semana seguinte, dia 26 de agosto de 1914.

Foram seis longos dias de muita expectativa. Os quatro rapazes - Cervo, Simone, Marzo e Ragonetti - mal puderam esperar até que chegasse aquela data. Mas, enfim, o sol nasceu em 26 de agosto de 1914, uma quarta-feira que entraria para a história do futebol brasileiro e mundial. Exatamente na hora marcada, estavam presentes ao número 2 da Rua Marechal Deodoro exatas 46 pessoas, hoje consideradas as fundadores do clube.

É verdade: esperava-se mais gente. Mas ao menos tinham os quatro jovens a certeza de que aqueles outros 42 homens sabiam exatamente o que poderiam esperar do Palestra Itália - pelo menos em seu início, esta seria uma agremiação de calcio. Ou de futebol, como chamavam-no os brasileiros.

Muita alegria, gargalhadas e confraternização, um bom vinho para brindar mais um "oriundi" que nascia mas...  E o dinheiro? Em meio à paixão característica do italiano, este detalhe fora relegado a segundo plano. O mais importante era fundar um clube. Só que, feito isso, o que era secundário passou ser primordial. E se percebeu, então, que havia pouco, ou quase não havia.

Claro que a honra de se tornar o primeiro presidente do Palestra Itália caberia a um dos quatro principais batalhadores do seu surgimento. Daí o grande problema que herdou, um segundo após ser eleito, Ezequiel Simone. Não bastassem os bolsos vazios, aquele italiano se viu às voltas também com uma série de conflitos de interesses, já que todos os 46 sócios-fundadores se julgavam no direito - e de fato o tinham - de fazer valerem suas opiniões particulares.

Pressionado, sem alternativas e sentindo rasgar sua pele a solidão à qual o poder muitas vezes relega aqueles que o detêm, a verdade é que Ezequiel Simone permaneceu no comando por apenas 19 dias, cedendo seu posto a Augusto Viccari.

Lá fora, o mundo fervia. Ainda que à distância e com poucas informações, já que os meios de comunicação não tinham nem um ínfimo da potência que hoje possuem, sabia-se que toda a Europa estava envolta numa disputa bem menos nobre do que a da presidência do Palestra Itália: a Primeira Guerra Mundial.

A Itália lutava contra o kaiser alemão Guilherme II, mas a força do general germânico era muita. Tanta, que o governo não teve outra alternativa senão recrutar italianos espalhados por todos os cantos do mundo a também defenderem as cores de sua pátria. E, italiano legítimo, Vaccari não fugiu à regra: arrumou suas poucas malas e embarcou num navio, fazendo o caminho de volta tão pouco tempo depois de ter chegado. Em seu lugar no Palestra assumiu Leonardo Paretto.

Mas, se a falta de dinheiro do novo clube já era enorme antes da guerra, após sua instalação aumentou ainda mais. Tudo porque a colônia deixou de enviar ao Palestra os fundos que costumeiramente fazia. Não eram muitos, mas eram alguns. Tal dinheiro passou a ser enviado à Cruz Vermelha e à Pró-Pátria, instituições que ajudavam a Itália a enfrentar os poderosos canhões alemães.

Desesperado, vendo-se sem saída e sem fundos até mesmo para o pagamento das contas de água e luz, Paretto chegou à conclusão de que o melhor para todos, inclusive para o Palestra, seria a sua morte. Dali a pouco, acreditava, a guerra terminaria e, então, todos se reuniriam para ressuscitar o querido clube e o tornar grande e forte.

Mas não era desta forma que um dos idealizadores, Luís Cervo, pensava. Quase sempre calado, ele resolveu intervir de forma mais direta, como nunca fizera antes. Um murro na mesa e o juramento de que o Palestra não iria morrer, que o seu ideal e o dos outros três jovens imigrantes - Ragonetti, Marzo e Simone - haveria de vingar. "Uma partida de futebol! Temos que organizar uma partida de futebol!", gritou Cervo. "Assim mostraremos que estamos vivos e que seremos grandes!", concluiu.

Cervo estava certo, suas palavras não poderiam ter sido melhor escolhidas.

Mais importante do que não deixar o Palestra morrer com pouco mais de quatro meses de vida era fazer do primeiro jogo de futebol de sua história um marco fundamental para o futuro do clube. A partida que seria a primeira do clube teria, claro, de ser vencida. Afinal, como convencer a colônia e boa parte dos fundadores de que o Palestra Itália mereceria uma nova chance se, logo de cara, uma grande derrota surgisse.

Porém, a grandiosidade estava mesmo nos planos desta grande paixão. Assim, escolhido o adversário, o Savóia, clube da colônia italiana na cidade de Sorocaba - que, é bom frisar, de fraco nada tinha - tratou-se então de se treinar, e muito, para que um grande papel fosse feito. A fim de chamar a atenção de todos os patrícios da região, ficou acertado que tudo o que se arrecadasse seria entregue à Cruz Vermelha italiana. Assim foi dito e assim foi feito, com a entidade beneficente recebendo 200 contos, uma fortuna na época.

Domingo, 24 de janeiro de 1915. Aquela tarde entrou definitivamente para a história não só do Palestra/Palmeiras, mas também de todo o futebol. Foi exatamente às 15h00 que o primeiro time do Palestra entrou em campo. Os 11 heróis que vestiram a camisa azul com a faixa branca, levando sobre o coração o distintivo contendo a cruz da Casa Real de Savóia, foram Stilittano; Bonato e Fúlvio; Police, Bianco e Vale; Cavinatto, Fiaschi, Alegretti, Amílcar e Ferré.

Em campo, nada de muito amigável apesar de se tratarem de duas equipes italianas. Jogo duro, disputado, mas que quiseram os deuses do futebol acabasse sendo vencido pelos italianos do Palestra e não pelos italianos do Savóia. O placar de 2 a 0, construído através dos gols de Bianco e Alegretti, deu um novo sopro de vida ao Palestra, pouco antes fadado ao esquecimento.

De fora, olhos lacrimejando de emoção, sabor de vitória e de dever cumprido, estava Luís Cervo. Ele sabia que, dali em diante, seria impossível acabar com o clube que ele e muitos outros, apesar do pouco tempo, já tanto amavam. Dali em diante, o Palestra pensaria grande porque seria grande, e o próximo passo seria a filiação junto à APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) a fim de disputar o Campeonato Paulista.

Pensavam os palestrinos que a vitória sobre o Savóia seria suficiente para que a entidade que regia o futebol paulista da época, a APEA, (Associação Paulista de Esportes Atléticos) aceitasse o clube em seu campeonato. Afinal, o time vencera de forma impoluta e nobre um adversário cujas qualidades ninguém ousava discutir.

Mas se enganaram os palestrinos. No momento da filiação, exigiu a APEA mais uma missão ao Palestra Itália. E com o detalhe: desta vez, o adversário teria de ser de ponta. A entidade tinha como objetivo fortalecer o torneio que organizava, e para tanto não poderia permitir a entrada de qualquer equipe que não fosse, a seu ver, digna de tal mérito.

Assim a APEA exigiu e assim o Palestra Itália tratou de fazer. Um amistoso com o Santos, considerado um bom time de então, seria a prova de fogo. Se vencêssemos, as portas do Campeonato Paulistas nos estariam abertas; mas se não vencêssemos...

Não vencemos. E pior: perdemos de forma humilhante, levando de 7 a 0 do time da Vila Belmiro. Não que a equipe do Palestra fosse ruim, muito pelo contrário; o problema é que a estrutura do Santos, que na época já contava com três anos de existência (o clube foi fundado em 14 de abril de 1912) era infinitamente superior à nossa. Afinal de contas, nem o primeiro aniversário havia completado o Palestra Itália.

Terminada a partida, o desespero tomou conta dos palestrinos. Disputar o campeonato Paulista seria fundamental para que o clube se fortalecesse, ampliasse ainda mais os laços com a colônia, inscrevesse de vez seu nome no noticiário esportivo da Cidade. Mas nem os insistentes e inclementes apelos sensibilizaram os dirigentes da APEA, que como prometeram vetaram a participação do Palestra Itália no Campeonato Paulista de 1915. E mais: não deram nenhuma esperança de que o quadro se reverteria em breve. E agora? O que fazer? Como manter vivo um time de futebol se o único campeonato em que ele pode figurar sua presença é proibida?

Não se pode negar que o abatimento foi mesmo geral. Embora no coração de cada palestrino estivesse ainda muito viva a certeza de que dias melhores viriam, estes pareciam distantes e, pior, sequer tinham data certa para chegar. A única solução, diante da impassividade da APEA, seria o Palestra Itália ocupar a vaga de um clube que já tivesse sua presença garantida no Campeonato Paulista de 1916. Mas quem desistiria disso?

O Wanderers. Ou melhor, desistir o time de origem inglesa não desistiu, mas foi, digamos, "forçado a desistir" pela entidade que regia o futebol paulista. Vale lembrar que nos primeiros anos o futebol não era, pelo menos oficialmente, um esporte profissional - algo que só se tornaria bem depois, em 1933. Assim, qualquer tipo de remuneração, por menor ou mais simbólica que fosse, era proibida no país.

E o Wanderers pagou seus jogadores por uma vitória. A história não registra qual foi o valor do prêmio e nem se ele se fez em forma de dinheiro, mas o fato é que os dirigentes da APEA descobriram e, como punição, desfiliaram o clube de seus quadros. pronto: surgia a vaga de que tanto precisava o palestra Itália.

Assim que tomaram conhecimento da desfiliação do Wanderers, dirigentes do palestra foram ate a sede da APEA, mais uma vez, pleitear a vaga. Mesmo a contragosto, a entidade aceitou a entrada palestrina na competição, não só por reconhecer a insistência daqueles senhores italianos mas também por não ter outra forma para preencher a lacuna deixada pelo antigo disputante.

Faltou vinho tinto naquela São Paulo, então uma espécie de pequena Itália.

A colônia estava em festa, já que seu filho mais querido estrearia num campeonato de ponta.

Evidentemente, a emoção tomava conta dos palestrinos e aumentava a cada dia que passava. A estréia no Campeonato Paulista de 1916 seria contra o Mackenzie, na época uma dos mais importantes clubes do Estados e que rivalizava com o Paulistano na condição de melhor time do futebol paulista.

Os dias foram passando até que chegou a tão esperada data de 13 de maio de 1916. Naquela tarde, esperava-se um passeio do Mackenzie sobre o Palestra, dadas as brutais diferenças entre os dois times, seja no aspecto técnico, seja no quesito estrutura. Mas o que se viu em campo foi um time palestrino que, embora consciente de sua inferioridade, teve garra de sobra para se ombrear ao gigante que tinha pela frente. O resultado final, um heróico empate em 1 a 1, com gol palestrino feito por Vescovini, surpreendeu a todos: afinal, até onde poderia chegar aquele Palestra Itália que só disputava o Campeonato Paulista graças a desfiliação do Wanderers?

Na verdade, o Palestra não poderia chegar muito longe. O primeiro resultado, o primeiro ponto, fizeram com que a esperança fosse ainda mais verde do que a camisa, mas a realidade era bem diferente. O desempenho do time no restante daquele campeonato foi bastante tímido: no total, obteve o Palestra três vitórias, dois empates e sete derrotas nos 12 jogos que disputou. O ataque até que esteve bem, marcando 19 gols, mas a defesa deixou muito a desejar: levou 23 bolas em suas redes.

Tal campanha só foi superior à feita pela Associação Atlética das Palmeiras, última colocada no certame, com 6 pontos, dois a menos do que o Palestra Itália. Naquele ano, o título acabou ficando com o Paulistano, que na partida decisiva goleou o Santos por 5 a 2.

Mas a má campanha não abateu os palestrinos. No fundo, todos sabiam que o time apenas iniciava uma história dentro do Campeonato Paulista, e que esta história seria, mais cedo ou mais tarde, recheada de glórias. No próximo capítulo você vai perceber que o Paulistão de 1917 apresentaria uma surpresa a todos.

Apesar do noviciado, terminar o primeiro Campeonato Paulista de sua história em penúltimo lugar feriu os brios dos italianos e também dos brasileiros que, desde então, igualmente já simpatizavam com o Palestra Itália. Assim, para não fazer feio no ano seguinte, a diretoria investiu – ainda que na época o futebol fosse ainda totalmente amador - e trouxe para o quadro nomes de peso, como Ministro, Bertolini, Martinelli e Heitor, este até hoje o maior artilheiro da história Palestrina/Palmeirense, com 284 gols.

E o desempenho glorioso que se esperava naquele Paulistão pôde ser sentido antes mesmo de seu início: em um amistoso contra o Paulistano, campeão do ano anterior, disputado em 18 de março de 1917, uma vitória alviverde por 3 a 2. "Chegou a nossa hora!", vibraram os palestrinos.

Quase. De fato a campanha palmeirense foi além da que poderia esperar seus mais fervorosos torcedores: apenas uma derrota em 16 partidas disputadas, das quais o Palestra ganhou 10 e empatou outras cinco. E mais: no jogo pra valer, válido pelo campeonato, em 26 de agosto daquele ano, dia em que o clube completava seu terceiro aniversário, eis que todos ganham um grande presente: mais uma vitória sobre o todo-poderoso Paulistano, desta vez por 1 a 0, gol de Caetano. Mas, apesar da glória de ganhar duas vezes do melhor time da época, no final o Palestra ficou dois pontos (25 a 27) atrás do rival, que mais uma vez faturou o título.

Houve, porém, um detalhe naquele Campeonato Paulista de 1917 que, sem exagero, valeu aos palestrinos quase como as faixas que foram enfeitar os peitos dos paulistanos: pela primeira vez, houve um Palestra Itália x Corinthians.

Uma rivalidade não começa do nada, sem que algum fato a tenha provocado, certo? Nem sempre. Pelo menos a de Palestra Itália e Corinthians tal frase não se aplica. Quando os dois clubes, pela primeira vez, se viram frente a frente, já não nutriam nenhuma simpatia recíproca.

Isso se deu porque, embora ainda incipientes, ambos já desfrutavam de grande apelo popular. Nem mesmo o Paulistano, bicho-papão daquele início de século, conseguia ter tantos torcedores quanto o alvinegro e o alviverde. Daí a rixa, a briga para saber quem era o melhor. E nada melhor do que um jogo pra valer, válido pelo Campeonato Paulista, para pôr fim de uma vez por todas às discussões que dominavam as esquinas da então provinciana São Paulo.

Assim, se fora de campo já existia, dentro dele a rivalidade entre palestrinos e corintianos nasceu exatamente às 15h45 da ensolarada tarde de 6 de maio de 1917, quando o árbitro Octávio Bicudo apitou o início da partida no Parque Antártica. Campeões do ano anterior pela Liga Paulista de Futebol (o outro campeão fora o Paulistano, pela Associação Paulista de Esportes Atléticos), os corinthianos - que tinham Neco, uma das grandes estrelas da época - davam como certa a vitória. Afinal, do outro lado estava apenas um grupo de inexperientes "italianos".

De fato, o desenrolar do jogo seria mesmo bem favorável ao Corinthians não fossem os reforços que o Palestra trouxera para a disputa daquele campeonato: Ministro, Bertolini, Martinelli e Heitor. Com os quatro e mais alguns que estavam no clube desde a sua fundação, (como Bianco, autor do primeiro gol da história do Palestra Itália), a equipe ficou forte o suficiente para enfrentar os campeões de São Paulo de igual para igual.

O primeiro tempo começou com os homens de camisa verde pressionando o adversário e criando boas chances. Mas as conclusões quase sempre deixaram a desejar e, quando isso não aconteceu, foi o goleiro corintiano Achiles quem evitou o gol palestrino. Aos poucos, o Corinthians foi equilibrando as ações e também passou a ter bons momentos, mas igualmente seus atacantes não pareciam estar em tarde das mais felizes. Assim, o 0 a 0 do primeiro tempo fez justiça aos que se viu em campo.

Durante o intervalo, as discussões das esquinas paulistas se mudaram para as arquibancadas do Parque Antártica. Quem, afinal, era o melhor? Mas a dúvida durou mesmo apenas 15 minutos, pois o segundo tempo do clássico foi mais verde do que poderia sonhar o palestrino e temer o corintiano.

Porém, não foi nenhum dos quatro craques contratados pela diretoria palestrina o escolhido pelos deuses do futebol para ser a grande estrela do jogo. O ponta-direita Caetano foi o dono do jogo. Aos 15 minutos da etapa final, ele abriu o placar para o Palestra Itália, assim descrito pelo jornal "Correio Paulistano" na edição do dia seguinte: "No começo do segundo half-time, tudo parecia indicar que o desfecho da pugna seria o mesmo do primeiro tempo. Decorridos, porém, 15 minutos de arremetidas e defesas, quase todas bem feitas, Caetano, extrema-direita do Palestra, recebe a esfera e, num belo rush, aproxima-se do goal contrário e, ainda um pouco distante, desfere um fortíssimo shoot enviesado ao retângulo defendido por Achiles".

O mesmo Caetano, balançaria as redes corintianas por mais duas vezes naquela tarde, aos 25 e aos 44 minutos. A vitória valeu a conquista da liderança, deixou os corintianos inconformados, mas isso foi o que menos importou.

Ao final do jogo, nas esquinas paulistanas já não mais se discutia quem era o melhor.

Embora passado apenas pouco mais de dois anos da estréia do Palestra Itália no Campeonato Paulista, uma certeza todos os seus adversários já tinham: aqueles italianos não estavam ali apenas por diversão. O desejo de grandeza e o gigantismo nato palestrinos eram flagrantes e, assim, o time já se tornara um rival à altura dos poderosos do futebol de então.

Por isso, não foi surpresa o advento de arbitragens tendenciosas contra o Palestra, que se tornaram indiscutíveis no Paulistão de 1918. Como no ano anterior, a equipe disputava o torneio organizado pela APEA, mas a "roubalheira" tornara-se insuportável. Tanto que em 30 de junho de 1918, quando enfrentava o Paulistano no campo do Jardim América, o Palestra se indignou com um pênalti marcado para o adversário, lance que a Imprensa da época considerou absurdo. Inconformado com o que considerou uma afronta às suas cores, a diretoria do Palestra Itália resolveu abandonar o campeonato.

Três meses mais tarde, através da intervenção do presidente da Associação dos Cronistas Esportivos, Olival Costa, o Palestra Itália foi de novo aceito pela entidade, mas não teve a permissão para voltar a disputar o Campeonato Paulista. Assim, de setembro a dezembro de 1918, só restou à equipe realizar amistosos.

Contudo, tal entressafra não foi tão prejudicial. Ao contrário, serviu ao Palestra para ganhar forças visando o Paulistão do ano seguinte.

Mesmo tendo apenas cinco anos incompletos de vida, a obsessão palestrina por um título já era total. E o ano de 1919 começou de forma animadora, com dois de seus jogadores - Bianco e Heitor - levantando a taça de campeões sul-americanos pela Seleção Brasileira em 29 de maio, numa vitória sobre o Uruguai por 1 a 0, no campo das Laranjeiras (Rio de Janeiro).

A campanha no primeiro turno foi impecável: em 20 pontos disputados, apenas um ponto perdido - para o Paulistano, num empate por 1 a 1. Tudo indicava que o título poderia vir, já que Palestra Itália, Paulistano e também o Corinthians (o primeiro trio-de-ferro do futebol de São Paulo) disputavam a liderança da tabela rodada a rodada.

O problema é que quanto mais equilibrado o campeonato, maior o preço a ser pago quando nele se perde pontos. E o Palestra Itália, tão jovem, não aprendera ainda tal lição. Resultado: dois tropeços seguidos, justamente frente aos dois rivais (0 x 1 Corinthians e 1 x 2 Paulistano), ambos dentro do Parque Antártica, fizeram com que o sonho das faixas fosse mais uma vez adiado. No fim das contas, Paulistano de novo campeão. E Palestra de novo vice-campeão.

A Primeira Guerra Mundial acabara há pouco e o mundo ainda se convalescia das feridas por ela causadas mas, claro, se aliviava com o fim do martírio. No Brasil, mais especificamente em São Paulo, a colônia italiana tinha mais um motivo para comemorar: 1920 prometia ser o ano da redenção palestrina.

Mas por pouco, muito pouco mesmo, não foi aquele ano mais um de muita frustração para o Palestra Itália. É que de nada adiantou o protesto e a saída do Campeonato Paulista do ano anterior - os roubos contra a equipe continuaram implacáveis. A determinação daqueles jovens idealistas que jogavam por amor à camisa era tanta que, mesmo assim, o Palestra seguia liderando a tabela e, conseqüentemente, cada vez mais perto do tão sonhado título.

Houve uma partida, porém, que extrapolou qualquer limite de justiça. Jogavam Palestra Itália e Corinthians no Parque Antártica naquele domingo, 5 de setembro de 1920. Os corintianos abriram o placar, e os palestrinos contestaram, alegando falta do ataque adversário. Pouco depois, 2 a 0 para o Corinthians, noutro lance bastante confuso e discutível. Novas reclamações, o jogo se reinicia e após uma defesa o goleiro palestrino Primo se choca com o craque alvinegro Neco que, em seguida, o agride a pontapés.

Fechou o tempo. O que se viu a seguir foi uma verdadeira batalha campal, que só terminou com a intervenção da Polícia. Contudo, o pior ainda estaria por vir: como se nada tivesse visto, o árbitro Odylon Penteado do Amaral não expulsou Neco, pivô de toda a confusão, o que indignou ainda mais os palestrinos. O Palestra Itália ainda teve tempo de diminuir o marcador, mas a derrota de 2 a 1 revoltou seus torcedores, que em protesto depredaram o Parque Antártica.

Mais indignados ficaram os dirigentes do Palestra, que logo no dia seguinte resolveram, após reunião da diretoria, mais uma vez solicitar à Apea a saída da competição. "Se é para ser prejudicado, então nosso clube se despede mais uma vez do campeonato", disse o presidente palestrino, David Pichetti.

A Apea já havia concedido a licença no ano anterior e, temendo que isso se tornasse prática toda vez que um time se julgasse prejudicado pela arbitragem, resolveu negar, contando com o apoio das outras oito equipes participantes, o pedido alviverde. Ou melhor, deixou bem claro na nota oficial que enviou ao clube: "Se o Palestra Itália se retirar do Campeonato Paulista de 1920, não terá seu lugar garantido para o torneio do ano que vem".

Não houve outro jeito senão continuar na competição. Mas então os jogadores se reuniram e juraram que, contra tudo e contra todos, o Palestra Itália seria campeão naquele ano.

De fato, a campanha continuou excelente e, terminado o segundo turno, Palestra Itália e Paulistano viram-se incrivelmente empatados em tudo: 26 pontos, 12 vitórias, dois empates e duas derrotas. E se o ataque paulistano havia sido melhor (61 contra 53 gols) sua defesa fora bem pior (19 gols contra 7 dos verdes).

O Corinthians? Bem, o Corinthians ficou apenas em terceiro lugar, um ponto atrás. Mandava o regulamento que em caso de duas equipes terminarem empatadas o título seria decidido em um jogo-extra. E ele foi marcado para 19 de dezembro, no neutro campo da Floresta.

Todas as atenções do Palestra estavam voltadas para Artur Friedenreich, um mestiço filho de alemão e negra que era o melhor jogador de futebol do mundo naquele época. Mas o Paulistano era muito forte, lutava pelo pentacampeonato e mesmo contra um adversário com os brios feridos era considerado favorito.

Do outro lado, todavia, estavam aqueles italianos, contra os quais tanto se tentara e tanto se fizera para que não estivessem ali, disputando a condição de melhor time de São Paulo. Depois de um primeiro tempo bastante equilibrado, na etapa final o jogo começou quente: logo aos 5 minutos, Martinelli acertou um forte chute no gol defendido por Arnaldo e colocou o Palestra Itália na frente. A alegria verde, porém, durou pouco: apenas um minuto depois, quando a defesa palestrina se preocupava com o mulato genial, Mário aproveitou para, livre, deixar tudo igual.

Daí em diante, chances perdidas pelos dois times mas, também, respeito mútuo prevalecendo em campo. Até que aos 32 minutos da etapa final, Forte se livra da marcação e toca para o fundo das redes paulistanas.

Os 13 minutos restante foram de intensa pressão do Paulistano, mas o goleiro Primo - ora com talento, ora com sorte - conseguiu evitar mais um empate. Ao apito final de Hermann Friese, São Paulo explodiu de alegria. O sonho, enfim, se realizara: Palestra Itália, campeão paulista de 1920!

Na São Paulo as vésperas do Natal, faltou vinho tinto para tanta festa.

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