Nasci Verde e Branco
Nasci verde e branco, de corpo, alma e espírito, em berço humilde do interior paulista.
Cresci livre, pés descalços, embalado por sonhos infantis grandiosos e mirabolantes, muitos dos quais se concretizaram plenamente em minha vida real.
Eu me lembro. Ah, como me lembro. Parece que foi ontem, hoje, agora... Agorinha mesmo.
Eu era
goleiro, um pequeno grande goleiro, um excepcional "gol-keeper", ou, como
se dizia à época no mais puro sotaque interiorano "gor-kipa". E eu
sonhava em ser um Oberdan Catani, tão cantado e decantado em prosa e verso pelo
meu velho pai, mas que já havia pendurado as chuteiras já que naqueles tempos
remotos ainda não havia as luvas, mas, apenas e tão somente a joelheira, abolida
dos joelhos dos "arqueiros", (outra expressão para designar os goleiros) por uma
legenda do futebol chamada Gilmar dos Santos Neves. As luvas só começaram a ser
notadas na copa de 58, na Suécia, causando grandes polêmicas sobre a
conveniência ou não de sua utilização pelos goleiros. Não sei, ou, se sei não me
lembro, quem teria sido o primeiro goleiro brasileiro a fazer uso das luvas, um
produto, à época, essencialmente europeu. O fato é que as incômodas e superadas
joelheiras, que tanto limitavam os movimentos dos goleiros, se foram e deram
lugar às luvas, estas, sim, apetrechos úteis e importante para quem opta por
atuar debaixo das traves. Eu disse que sonhava ser um Oberdan Catani, quem sabe
um Fábio ou, até, o Cavani, mas acabei recebendo o apelido de Muca,
extraordinário goleiro da portuguesa, um time arrasador do início da década de
50 e que tantos danos impunha aos adversários, em goleadas homéricas e
impiedosas. Muca, Nena e Hermínio. Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci. Julinho
Renato, Nininho, Pinga e Simão era a escalação desse time formidável que, a
posteriori, montou outro ataque infernal com Lierte, Renato, Edmur Ipojucan e
Ortega.
Esse
apelido de Muca me deixava irado, já que eu não apreciava a lusa. Pelo contrário
eu a detestava porque tomaram-nos um Rio-São Paulo metendo-nos uma goleada de
quatro, fora o show de bola. Fiquei tão chateado com o apelido de Muca que
resolvi deixar de jogar no gol e passei a atuar na linha, onde o jogo é muito
mais participativo. De melhor goleiro mirim do bairro passei a ser apenas mais
um jogador de linha, perdido entre tantas feras (não é saudosismo, é realidade
mesmo) que havia naquela época, em número muito maior do que hoje, apesar do
crescimento vertiginoso da população.
Os mais antigos sabem que, naquela época, para se chegar a São Paulo, não havia linhas regulares de ônibus. Havia poucos automóveis e as estradas eram mal cuidadas e perigosíssimas. A viagem era feita por trem. Assim quem morasse de Jundiaí a Barretos, por onde passava a Companhia Paulista de Estrada de Ferro, parava na Estação da Luz. Quem viesse de Araçatuba, Bauru vinha pela Estrada de Ferro Noroeste. Quem viesse de Sorocaba, chegava à estação da Sorocabana. Isso está sendo dito para ilustrar um aspecto da vida da época. Por qualquer das rotas que você chegasse a São Paulo, você passava por milhares (não é exagero) de campos de futebol. Era um ao lado do outro, mais ou menos no estilo dos campos que existem quando você vai ao aeroporto de Guarulhos. Sabem qual a diferença? Naquela época os milhares de campos estavam lotados com milhares de pessoas praticando o futebol. Hoje, estão sempre vazios. Mas você passava pelo trem e ia observando a cor das camisas, notando claramente que havia a predominância das cores verde e branca e preta e branca, confirmando que o Palmeiras e Corinthians dividiam as preferências da população.
Em
minha infância, muito mais vi o Palmeiras perder do que ganhar, mas nem por isso
"virei a folha". Tenho lembrança viva da conquista do Mundial de 51 pois a Taça
Rio, sim, foi um verdadeiro mundial com a presença marcante das maiores e
melhores equipes européias da época, mais Palmeiras e Vasco, o então expresso da
vitória, base da seleção brasileira vice-campeã da copa de 1950 com Barbosa,
Augusto, Danilo Alvin, Friaça, Ademir (o artilheiro da copa) Chico Aramburu e
outros jogadores extraordinários. Para que vocês tenham uma idéia da força e do
poderio desse clube, basta dizer que era chamado de "O Expresso da Vitória" e
foi campeão reiteradas vezes no Rio de Janeiro, então o maior centro
futebolístico brasileiro e capital do país. Mas depois dessa conquista, amarguei
o dissabor de um naufrágio total de nosso time, que jejuou até 1959. De 51 a 59
eu só amarguei derrotas. O Corinthians tinha um time espetacular: Gilmar, Homero
e Olavo; Idário, Goiano e Roberto; Cláudio, Luizinho, Baltazar, Carbone e Mário,
no qual jogaram, também, Cabeção, Walmir, Antonio Julião, Benedito Julião,
Paulo, Rafael, Jackson, Souzinha, Jansem e tantos outros.
Esse time me fez chorar copiosamente tantas vezes, em uma época que muitos meninos começaram a bandear e migrar para São Paulo e Santos, principalmente para o São Paulo, que eram os únicos adversários para os quais o Corinthians ainda perdia. O São Paulo tinha Poy, De Sordi e Mauro; Pé-de-valsa, Bauer e Alfredo; Maurinho, Dino, Gino, Zizinho e Canhoteiro, vindo depois Sarárá, Vitor, Riberto, Lanzoninho, Amauri, Bacurau e tantos outros. O Santos já era grande muito antes de Pelé. Em 1955 ganhava o título paulista com um timaço formado por Manga, Hélvio e Feijó; Ramiro, Formiga e Zito; Alfredinho, Álvaro, Pagão, Vasconcelos e Tite, atuando também Urubatão, Negri, Ivã, Pepe, Del Vechio e tantos outros jogadores excepcionais.
O
ano em que mais senti a perda de um título foi 1954, quando São Paulo festejava
o Quarto Centenário se dizia, à época, que aquele era o título mais
importante entre todos, porque valeria por cem anos. Derramei lágrimas em
profusão ao pé do rádio, acompanhando um jogo em que o Palmeiras, por ordem de
um pai-de-santo, enfrentou o Corinthians usando camisas azuis. Eles marcaram um
gol logo no início do jogo e só iríamos empatar através de nosso centro-avante
Nei no início do segundo tempo. A defesa deles, hoje eu compreendo, era muito
sólida em um tempo em que as arbitragens faziam "vistas grossas" ao jogo
violento e quase tudo era permitido dentro de campo. Uma coisa eu não
compreendia em minha inocência infantil: por que o meu grande ídolo, Humberto
Tozzi, que fazia gols em quase todos os jogos, nunca conseguia enfiar uma bola
nas redes corinthiana. O carioca Humberto, até hoje, tem "a maior média" de gols
entre todos os artilheiros de nossa história. Foi vendido para a Lazio por uma
soma considerável e voltaria ao clube no início da década de 60 para encerrar a
carreira.
Até
1959 fomos o grande "armazém de pancadas" do campeonato mais importante da
época, o paulista e ficamos 8 anos sem conseguir vencer os gambás na competição.
A exceção ficou para uns dois amistosos e um ou outro jogo pelo Rio-São Paulo.
Apesar das "sovas" constantes que levávamos, das derrotas acachapantes, dos
times horrorosos que a nossa diretoria armava, eu permaneci firme amando o
palmeiras sobre todas as coisas. E assim foi a minha vida até que chegou o ano
de 1958 quando o palmeiras cansou de apanhar e de ser humilhado e armou um super
time. No rio grande do sul foi buscar Valdir Joaquim de Morais, Ênio Andrade e
Chinesinho, que haviam sido campeões pan-americanos pela seleção gaúcha com a
camisa do Brasil. Na portuguesa fomos buscar o campeão do mundo Djalma Santos e
na Fiorentina Júlio Botelho, estes os maiores jogadores de todos os tempos em
suas posições (não venham me falar de Garrincha que esquentou banco para
Julinho). Em Pernambuco buscamos Zequinha e Aldemar, destaques da "Seleção
Cacareco" como era chamada a seleção pernambucana por ter representado mal o
país com a camisa da seleção brasileira. Do Santos trouxemos Chico Formiga e do
Flamengo Paulinho e o goleiro Aníbal, o primeiro a defender um pênalti batido
por Pelé. No Corinthians, antes, já havíamos buscado Nardo, um atacante de força
e no interior Américo Múrolo, além de termos mantido entre outros um jogador de
nossa base, Valdemar Carabina, um dos maiores zagueiros de nossa história. Vocês
acham que Rogério Ceni é o maior batedor de faltas da história? Se acham,
perguntem aos mais antigos quem foi Romeiro, um meia ofensivo que fomos buscar
no América carioca.
Considero
que a academia começou em 21 de agosto de 1958 quando metemos 4 x 0 no
Corinthians, oportunidade em que Paulinho acabou com o jogo e fez três gols, com
Julinho fechando o placar. Dessa data em diante, foi só alegria. Ainda que
perdêssemos algumas para os adversários, soubemos manter a hegemonia. Ademir da
Guia, que veio do Bangu, só foi incorporado ao time titular em 62 quando a
primeira academia já era soberana no futebol paulista, dividindo as honras com o
Santos F. C.
A segunda academia eu a considero a partir de quando Dudu e Ademir começaram a formar a mais famosa dupla de meio campo da história do futebol paulista no ano de 68, sob o comando de Dom Nelson Ernesto de Filpo Nuñez, El Bandoneón, o único estrangeiro, até hoje, a dirigir a seleção brasileira, quando o Palmeiras se apresentou na inauguração do Mineirão, de forma oficial, com a camisa canarinha. Em 68 já não restava, praticamente, ninguém da primeira academia. A maioria havia se aposentado ou se transferido para outras equipes em razão da necessária renovação. Os pernambucanos Zequinha e Gildo e o lendário Djalma Santos foram os últimos a deixar o barco alvi-verde. Djalma terminou a carreira ganhando um altíssimo salário no Atlético do Paraná e hoje reside na cidade mineira de Uberaba, gozando de ótima saúde.
A
segunda academia foi um time bom e barato, formada por revelações de times do
interior. O primeiro clássico com Dudu e Ademir titulares contra o Corinthians
ocorreu no final de 1968 e vencemos por 2 a 0, gols de Tupãzinho e Dudu. Daquele
time que começava por Chicão que veio do São Bento de Sorocaba, tinha Eurico
(lateral reserva do Botafogo de Ribeirão, Baldochi (do Botafogo RP), Nélson (do
América de Rio Preto) e Dé (da Portuguesa Santista). Dudu (Ferroviária de
Araraquara), Ademir (Bangu), Copeu (Sorocaba), Servílio (da Portuguesa SP),
Artime (Independiente da Argentina ) e Serginho (Portuguesa Santista).
Pois
essa segunda academia, sem jogadores caros ou consagrados, foi a que mais surrou
os gambás e culminou com o implacável título de 1974 (eu estava no Morumbi) que
eles queriam ganhar "na marra". O palmeiras nesse período compreendido entre a
primeira e a segunda academias, foi, seguramente, o maior clube do Brasil e um
dos maiores do mundo. Teve um recorde de jogadores convocados para a seleção de
1974, seis. Ganhou muitos campeonatos paulistas, a maioria dos títulos nacionais
disputados, torneios no exterior,foi o único clube brasileiro a "peitar" o
grande Santos de Pelé e vendeu, a peso de ouro, muitos de seus craques para o
exterior. Essa lua de mel com títulos e conquistas acabou em 1976 quando
conquistamos o último título em que esteve presente a dupla Dudu e Ademir,
embora em outras circunstâncias, haja vista que Dudu já houvera abandonado a
carreira e havia virado treinador. Ganhamos do XV de Piracicaba por 1 a 0, gol
de Jorge Mendonça e fomos campeões. Aí entramos novamente em depressão. Ainda
que montando ótimas equipes e ganhando a maioria dos clássicos, as conquistas
nos fugiram das mãos inexplicavelmente. A perda do título paulista de 86 foi
traumática e dolorosa, tanto quanto houvera sido a perda do brasileirão de 1978,
em ambos os casos para times do interior, respectivamente a Inter de Limeira e o
Guarani de Campinas. Era o estigma de Robim Hood, isto é, de time que
tira dos grandes para entregar para os pequenos. Várias vezes entregamos
classificações para times obscuros como XV de Jaú e Asa de Arapiraca, para que
se permaneça, apenas, nestes dois exemplos.
Depois
Ademir da Guia encerrou a carreira, ainda que houvéssemos formado grandes times,
os títulos sumiram do Parque Antártica e só voltariam em 1993 com a montagem do
que muitos chamam de a Terceira Academia. Entendo esse título inapropriado, haja
vista que o estilo desse Palmeiras da Parmalat, tão cheio de grandes craques era
avassalador. Eu diria diferente, ou seja, esse time foi um rolo compressor ou um
rolo de asfalto, que esmagou todos os adversários de forma envolvente e
avassaladora. Esse time que muitos julgam haver sido montado pelo Luxa, não foi
concebido por ele, mas pelo paranaense Otacílio Gonçalves, conforme admite
publicamente o próprio técnico campeão, Vanderlei Luxemburgo. Sergio, Mazinho,
Antonio Carlos, Tonhão, Roberto Carlos. César Sampaio, Daniel, Edílson, Zinho,
Edmundo, Evair. Quem é que não se lembra dessa "máquina" de moer rivais.
"Máquina" que a meu ver, não venceria a segunda academia, seguramente o
nosso melhor time a partir de 1950. Embora sem os craques de nome de outras
equipes, como a primeira academia que era uma verdadeira seleção brasileira era
um time de alto senso competitivo. E por que a máquina não venceria ?
Analisemos: porque com Leão no gol, muito superior a Sérgio, Eurico, menos
ofensivo e mais marcador do que Mazinho. Porque entre Luiz Pereira e Antonio
Carlos, é brincadeira comparar, entre Tonhão e Alfredo Mostarda quem discute que
Alfredo foi melhor ? Roberto Carlos, é inegável, foi melhor que Zeca, mas alguém
ousa comparar César Sampaio a Dudu ? Zinho a Ademir da Guia? No ataque, há
equilíbrio. Concordo que Edmundo,foi melhor do que Edu. Edílson e Leivinha se
equivalem porque se Edílson era excepcional como puxador de contra-ataques e um
mestre das jogadas de velocidade, Leiva foi um jogador cerebral,
excepcionalmente competente, um verdadeiro PHD no jogo aéreo. Na comparação
Evair e César, basta que se diga que o Maluco é um dos maiores artilheiros de
nossa história, embora Evair fosse, além de um jogador cerebral, o autor de
muitos gols importantes e decisivos. Eu digo que a academia venceria, por várias
razões. Em primeiro lugar imporia o seu magistral toque de bola, o jogo de capa
do toureiro, para cansar o touro. Em segundo lugar o seu poder de marcação era
incrível, a base da meia pressão, deixando o adversário chegar à sua
intermediária para dar o bote e recuperar a bola. Em terceiro lugar porque a
segunda academia sabia jogar entrando em toques, ou em velocidade com Edu e Nei,
nas jogadas de falta ensaiadas ou em cruzamentos para o maior cabeceador da
época, Leivinha.
Enfim, a segunda academia dispunha de um arsenal de jogadas e táticas de que o time de Luxa não dispunha. Ademais, a segunda academia tinha o lado psicológico resolvido e não se apavorava quando sofria gols e tinha de partir para o jogo de recuperação. Como se tudo isso não bastasse, dispunha do maior reserva da história do futebol brasileiro: Fedato. Quando a coisa apertava Fedato entrava e em 90% das situações resolvia o nosso problema. E para finalizar. Se a academia saísse na frente começava o jogo do toque curto, médio ou longo, cansando e desestimulando os adversários, levando-os ao desespero e ao cansaço. Essa situação de jogo, que os times de hoje tentam imitar, era denominada pelo grande comentarista Mário Morais, o maior da história do rádio, como o "jogo da paciência".
Depois
disso chegamos à era Felipão, também uma época áurea e da conquista de nossa
primeira libertadores, copa do Brasil, Copa dos Campeões e até um Vice Mundial.
Hoje, lutamos estoicamente pela nossa afirmação como clube de ponta e pela
revitalização de nosso time. Como tudo neste mundo, sobretudo no futebol, é
cíclico, o nosso Palmeiras vai, seguramente, dar a volta por cima. Somos uma
nave espacial, às vezes, dirigida por pilotos de asa delta. Vejam que, apesar de
tudo, seguimos o nosso caminho impávidos e imponentes. Apesar de tanta
mediocridade administrativa em alguns mandatos e de tantos desmandos cometidos
por tantos dirigentes (até nosso dinheiro já roubaram) ninguém conseguiu e
jamais conseguirá derrubar esse gigante do futebol mundial chamado Palmeiras.
Esta a homenagem sincera que faço ao meu clube e àqueles que têm a honra e o privilégio de dedicar amor e carinho a um clube da magnitude e grandeza da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Alcides Drummond - Esmeraldino BH - 2006