Julinho, Talento e Ética

 

Julio Botelho, o Julinho, um dos maiores pontas direitas da história do futebol brasileiro e do mundo. Nasceu em 29 de julho de 1929, em São Paulo e faleceu aos 73 anos de idade no dia 11 de janeiro de 2003, vitima de problemas cardíacos. Sempre morou no bairro da Penha, zona leste de São Paulo. Nasceu e morreu lá, tanta era a saudade  da Penha que  foi um dos motivos a determinar sua volta ao futebol do Brasil, para desespero dos torcedores da Fiorentina, que simplesmente o idolatravam e continuam a reverenciá-lo. Julinho jamais será esquecido na Toscana.

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Começou sua carreira no Juventus. No começo dos anos 50, e depois se transferiu para a Portuguesa. Defendeu a lusa do Canindé até 1955, ano em que foi negociado com a Fiorentina da Itália.

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Em Florença, foi ídolo e até hoje é lembrado pelos torcedores italianos. Contam que num restaurante de Firenze, na Toscana, existe até hoje uma placa na parede, onde “II Signore Julio Botelho” tinha um lugar reservado. O jornalista esportivo Juca Kifuri é testemunha disso. Numa viagem pela Itália, em Firenze, conta o jornalista que indo almoçar ou jantar, fora identificado pelo dono da casa como “brasiliano”, que perguntou sobre Julio Botelho, como ele estava, querendo saber de sua saúde e se o jornalista tinha notícias dele. O Juca conta que deu a informação que o Julinho estava bem e morando na Penha, etc. Feita a refeição,  na hora de sair, quando pediu a conta, fora informado que amigos de Julio Botelho, naquela casa, nada pagavam. Isto depois de 30 anos de sua saída da Fiorentina.  Em 1963, defendendo o Palmeiras, a convite para o Torneio de Firenze, na chegada da delegação esmeraldina ao aeroporto daquela cidade, uma multidão se aglomerava para dar boas vindas ao ídolo

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Retornou ao Brasil em 1958 para defender o Palmeiras, onde ficou até 1967, mas continua lembrado carinhosamente para o todo sempre como o craque e homem que foi.

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Seus principais títulos conquistados por clubes foram: Rio-São Paulo pela Portuguesa (1952 e 1955) e pelo Palmeiras (1965). Italiano pelo Fiorentina (1955-1956). Paulista pelo Palmeiras (1959 e 1963). Taça do Brasil pelo Palmeiras (1960), e uma infinidade de Torneios, sendo Vice-Campeão da Europa em 1955-1956.

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Na Seleção Brasileira, Julinho viveu grandes momentos, entre eles o Pan Americano de 1952, no Chile, onde o Brasil foi Campeão, tendo como base a equipe da Portuguesa. As eliminatórias da Copa do Mundo de 1954, na Suíça. O Brasil ficou encantando com a nossa Seleção. Julinho era um das principais esperanças. Naquela Copa, o Brasil estreou no 16.06.1954, contra o México do grande goleiro Carbajal, Julinho fez um gol antológico nos 5 x 0. Depois o Brasil empatou com a Iugoslávia em 1 x1 e desclassificado pela Hungria por 4 x 2, num jogo conturbado pela atuação do juiz. Neste jogo Julinho mostrou ao mundo sua técnica e sua raça, saindo chorando do gramado.

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Nesta Copa do Mundo de grandes equipes como Alemanha que foi a campeã e da Hungria de Puskas, o Brasil teve dois jogadores considerados os melhores em suas posições: um Djalma Santos e o outro Julinho.

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Na convocação para a Copa do Mundo de 1958, Julinho foi consultado sobre a possibilidade de vir a participar da equipe nacional. Naqueles tempos jogando fora do país, o jogador não era convocado, mas Julinho era especial, nossos dirigentes e a torcida tinham por ele muita consideração e respeito. O craque, embora tivesse desejo de participar daquela convocação, mostrando todo seu caráter não achou justo tomar o lugar de outro jogador que estivesse no Brasil.

Retornou ao Brasil em 1958, logo depois da Copa do Mundo, cumpriu seu contrato com a Fiorentina até o final. O presidente da Fiorentina num último recurso para segurá-lo na Itália, colocou sobre a mesa um contrato assinado, pedindo ao craque que colocasse o valor que ele achasse ideal, o clube estava determinado a pagar qualquer soma para tê-lo, mas a saudade do Brasil, da família e da Penha falou mais alto e ele votou, deixando para trás uma torcida que continuou a idolatrá-lo.

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Era uma alegria assistir seus jogos. Na final do torneio Rio-São Paulo de 1955, ele marcou o 2º. Gol da Portuguesa, que foi a Campeã. Julinho driblou toda defesa do Palmeiras, saindo do meio do campo, em diagonal, quase entrando de bola e tudo, no gol da entrada do Pacaembu. O seu marcador era o Dema o Carrapato. Dos 7 x 3, contra o Corinthians em 1951. Alfredo Inácio Trindade, até hoje onde ele estiver deve estremecer, Julinho fez quatro e o Pinga três. O Gilmar foi proibido de entrar no Parque São Jorge e marginalizado. Mas o Gilmar, como todos que tem caráter, deu a volta por cima, dando muitas glórias ao próprio Corinthians, ao Santos e a Seleção Brasileira.

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Em seu retorno ao Brasil, jogo contra o Corinthians, no primeiro turno do campeonato de 1958, o seu marcador era o Oreco, lateral gaúcho, campeão do mundo. Que partida fez o Julinho!

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A equipe alviverde ganhou de 4 x 0. Um verdadeiro baile. O Oreco só conseguiu segurá-lo na porrada, tanto é que no final do 1º. Tempo, Julinho foi machucado para os vestiários, voltando ao jogo somente aos 10 minutos do 2º. Tempo. Assim que ele apareceu na boca do túnel, a torcida esmeraldina foi ao delírio. Na primeira bola que ele pegou, deu vários dribles no Oreco, deixando-o sentado na linha de fundo, passando a bola para o Paulinho fazer o terceiro gol e no final, em jogada semelhante, passou a bola para o Paulinho fazer o quarto gol. Ao término da partida, a torcida esmeraldina não se conteve, invadiu  o gramado do Pacaembu, levando nos braços o grande ídolo.

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E, quem pode esquecer daquele memorável 13 de maio de 1959. Jogo amistoso entre Brasil e Inglaterra. O Maracanã lotado com mais de 150 mil torcedores. Disse: cento e cinqüenta mil torcedores. Uma sonora vaia ecoou quando do anúncio da escalação do time brasileiro, a torcida carioca queria Garrincha no time, mas em seu lugar fora anunciado Julinho.

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O craque não se abalou, era de personalidade ímpar. Na primeira jogada que participou driblou a defesa inglesa e fez o primeiro gol do Brasil, isto aos três minutos de jogo. Aos seis minutos em jogada sensacional, driblando toda defesa inglesa, passou a bola para o Henrique fazer o segundo gol. O jogo foi de arrepiar, Julinho pegava na bola driblava os adversários com tamanha  facilidade, que eles vinham em sua marcação em dois até três defensores, que quase nunca conseguiam tirar-lhe a bola. Saiu de campo absolutamente consagrado. A torcida naturalmente apaixonada por Garrincha, deu o braço a torcer e dedicou a Julinho uma das maiores ovações que um jogador de futebol recebeu no Maracanã, desde 1950 até os dias de hoje. Herói do jogo, calou as vaias, acabou com a Inglaterra e os aplausos que recebeu “são ouvidos até hoje”, no maior estádio do mundo. Os ingleses ficaram alucinados. Vocês têm  dois Garrinchas! Não, na verdade nós temos dois Julinhos, como diria Nelson Rodrigues: Se eu fosse treinador da Seleção Brasileira, colocaria o Julinho na direita e a Garrincha na esquerda.

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Na Copa do Mundo de 1962, Julinho foi convocado. Era seu sonho participar naquela Copa, estava bem preparado, mas a véspera do embarque sofreu uma contusão em um dos joelhos, e por mais que o departamento médico da seleção se dedicasse, ele não reunia condições, podendo ou não se recuperar durante a Copa, criando problemas para a Comissão Técnica, que desejava que ele fosse para o Chile. Mais uma vez o rapaz da Penha mostrou seu caráter, depois de um treino, pegou sua camisa, e num gesto de grandiosidade entregou ao Jair da Costa, dizendo-lhe: Vai garoto que esta é a sua oportunidade, voltando para São Paulo, ao Palmeiras, para tratamento e continuar a brilhar como sempre o fez. Jair da Costa, ou  simplesmente Jairzinho da Portuguesa, mais tarde, se tornaria um dos grandes pontas direitas do mundo, jogando pela Internacionale de Milão.

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Julinho jogou pelo Palmeiras até 1967. Sua despedida com a gloriosa camisa sete, se deu num jogo amistoso entre Palmeiras x Náutico, vencido pelo alviverde por 1 x 0, gol de Zé Carlos aos 6 minutos de jogo do primeiro tempo.

 

O Estádio Palestra Itália estava lotado, e Julinho recebeu naquele dia, a gratidão e reconhecimento da torcida, não só do Palmeiras, da Portuguesa, mas de toda torcida brasileira, que tanto o aplaudiu nos campos de futebol.

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Lourival Tobias, dezembro de 2006

 

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