PALESTRA . PALMEIRAS

A História de uma Paixão

 

 

Eu só conheci meu avô paterno em 1983. Seu Nicola, já tinha 65 anos. Mas era forte como um touro e lúcido como um garoto. Ele morava em São Carlos, interior de São Paulo. Eu tinha 16 anos e estava achando tudo um tédio. Sair da cidade grande, para morar numa cidade pequena, e com dois velhos, meu avô e minha tia Isaura.

 

Meu pai havia brigado com meu avô e raramente conversavam... sangue calabrês!! eles se comunicavam por intermédio da tia Isaura. Mas mal sabia, que estavam por vir os melhores anos de minha vida. Meus tutores, eram muito antiquados, não gostavam de TV, e por muito tempo não assisti televisão, mas o rádio de válvulas, funcionava que era uma beleza. Seu Nicola, contava suas histórias... de quando chegou ao Brasil e se estabeleceu na cidade, montando uma alfaiataria e que seu mais nobre cliente, não estava na cidade e sim em São Paulo, o conde Francisco Matarazzo, à quem foi recomendado, por um amigo de infância, que trabalhava nos escritórios do conde.

 

Contava de suas viagens, para entregar os ternos pedidos para o Conde e sua família, e que nessas viagens levava o pequeno Ítalo, meu pai, que um dia, convidado pelo conde para assistir uma partida do Palestra Itália e ali conheceu o maior amor da sua vida, o time do Palestra Itália. Tanto que passou a vir com mais freqüência à Capital e mesmo sem o convite do conde se hospedava em hotéis próximos ao Palestra, onde assistia aos jogos e então retornava para São Carlos...

 

Muitas histórias vivemos juntos... um dia o rádio não estava sintonizando o jogo do Palmeiras. Estavam jogando Palmeiras e São Paulo, meu avô aflito, falava com ele mesmo, num dialeto calabrês, xingado de raiva... naquele dia fomos para a cama sem saber o resultado.

 

No outro dia saí para a escola às 6:00 da manhã. Na saída da escola eu olho pela janela e seu Nicola do outro lado da rua me esperando com um jornal... hahahahha quando ele me viu, veio correndo me abraçar, sorrindo e gritando: ”Ganhamos... ganhamos dos pernáquia!!!

 

Em 93, quando o Palmeiras foi para a final contra o Corinthians, meu avô estava já meio debilitado, nesse momento já havíamos comprado uma tv e assistimos todos os jogos que passaram pela TV...

 

Meu avô era um palmeirense irrequieto e sempre me dizia: ”Marco, me leva para assistir a um jogo do Palmeiras, pois eu só vi o Palestra Itália jogar, nunca vi o Palmeiras em campo. Não quero morrer sem assistir um jogo do meu Palmeiras".

 

Assistimos aquela final em casa. Com uma presença ilustre: Meu pai! ele veio de São Paulo, para assistir conosco. Devidamente carrancudo, sentou a 3 metros do velho Nicola (meu pai não dava o braço a torcer).

 

Quando o time entrou em campo, meu pai tentou dar uma amenizada no clima... olhando para o meu avô: ”Olha... olha como o time está diferente... está com raiva!!! Vamos ganhar!!! Vamos ganhar!!!”

 

Meu avô fingiu que não ouviu e pediu para eu aumentar a tv por que o jogo iria começar... eu sempre soube entender isso de uma certa maneira. Havia um certo temor no ar... o Palmeiras havia perdido a primeira partida e embora com um time superior, pesava nas costas os longos e tristes anos de fila...

 

Até que saiu o gol do Zinho!!!

 

O que um gol faz... o que uma paixão provoca... a sala inteira explodiu, estavam lá meu primos, meus tios, mas logo em seguida um silêncio! Uma cena inusitada, que não se via há mais de 20 anos. Meu pai e meu avô se abraçando os dois se abraçavam e choravam... havia ali um misto de alegria e arrependimento. os anos em que nunca se falaram e nunca se abraçaram, pareciam ser compensados naquele instante!!  Eu juntei-me à eles.

Nunca mais se largaram...

 

Ano de 94, final do Brasileiro. Meu avô, chega cedinho com duas passagens de ônibus para São Paulo... Se troca, nós vamos para São Paulo, eu não sei mais como faz, para ir, você me ensina.

 

Eu estranhando: Mas vô... o que vamos fazer em São Paulo?

”Vamos ver o Palmeiras ser campeão!!! Eu só vi o Palestra ao vivo... quero ver o Palmeiras agora!!”

 

Eu ia prestar o vestibular,no dia do jogo contra o Vitória... mas não podia, deixar de realizar o sonho do meu avô!

 

Naquela época o Osmar Santos, narrava o jogo e chamava o Edmundo de animal! e o velho Nicola, se esbaldava de gritar:é o animaaaal

 

Ainda lembro do lance... estávamos ali de frente quando o Edmundo invadiu e tocou a bola, ahahahah meu avô dizia: Foi deleeee, foi deleeee: do Animaaaaaaal!

 

Chegamos tarde em casa... meu avô cansado se sentou na sala, e eu fui lá dar um abraço nele, e perguntei: Está contente vô?

 

Nunca me esquecerei o que eu escutei naquele dia.

 

Disse ele: ”Sabe Marco, eu queria muito duas coisas nesse pouco tempo de vida que me resta. A primeira era abraçar meu filho novamente, pois eu não poderia deixar de fazer isso antes de partir. A segunda era ver o meu Palmeiras campeão e fazer isso com meu filho e com meu neto juntos. Só posso dizer que Deus gosta muito de mim... acho que não vou viver para assistir com os seus filhos, mas eu vou estar lá... ah se vou!

 

Meu avô continua vivo até hoje basta o Palmeiras jogar... em cada jogo do Palmeiras, onde o Palmeiras jogar, ele está por lá... e nós estamos com ele, nunca vou esquecer dessa paixão!

 

Seu Nicola... do Palestra ao Palmeiras pela eternidade!

 

Texto: Marcão Vingador

Transcrito do Fórum do PDT

Voltar