Deuses da Raça Alviverde
Jair Rosa Pinto  –  O Jogo da Lama.

                Ao iniciar esta coluna, pretendo abordar um tema que acho por demais importante dentro de nossa rica história, ou seja, aqueles nossos grandes heróis palmeirenses, que talvez, nem sempre pela técnica, mas sobretudo pela raça, tão bem souberam dignificar o nosso sagrado manto verde. Bem sei que ao escolher  Jair Rosa Pinto, para dar inicio a esta série dos deuses da raça alviverde, algumas pessoas poderiam estar se perguntando: O grande Jajá de Barra Mansa, sempre que vestiu a camisa alvi-esmeraldina, o fez com grande técnica e maestria, e nem tanto pela raça! Concordo, com tal indagação! Mas existiram sim algumas partidas, em que o grande Jair Rosa Pinto, levou  nossa amada SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS, a vitórias antológicas, assim como títulos por demais significativos. Portanto, nesta semana, pretendo citar uma das mais emocionantes e épicas batalhas que nossa esquadra alviverde realizou, tendo como protagonista, o nosso querido Jair Rosa Pinto. Antes de iniciar a narrativa da histórica partida, gostaria de citar a trajetória deste grande meia, antes de aportar pelos lados de Palestra Itália.
                O espetacular Jair Rosa Pinto, o conhecido Jajá de Barra Mansa, que na verdade nasceu na cidade fluminense de Quatis, no dia 21 de Março de 1921,  iniciou a sua carreira profissional no modesto Madureira, onde atuaria nos anos de 1943 e 1944, transferindo-se em seguida para o Vasco da  Gama. Na equipe cruzmaltina permanece de 1945 a 1947, indo atuar por sua vez, na equipe do Flamengo. Defende as cores rubronegras nos anos 1948 e 1949. Um fato triste marcaria a sua saída do Flamengo para o nosso amado PALMEIRAS.  Após uma vexatória derrota para o seu maior rival  ( Vasco da Gama ) pelo placar de  5 x 2, no ano de 1949, a torcida flamenguista o acusou  de fazer corpo mole, e incentivados pelo famoso radialista e compositor Ari Barroso, queimaram uma camisa 10, a numeração que o grande Jair Rosa Pinto usava. Fato este que motivou a sua troca de clube e de cidade, vindo atuar, ainda na temporada de 1949, em nosso  querido Alviverde. Ao chegar no PALMEIRAS, foi recepcionado com a Marchinha dos Periquitos, e como podemos observar ao lado, no seu primeiro treino na equipe alviverde, foi bem recebido, tanto pela torcida, como pela imprensa local.  A sua estréia defendendo o nosso glorioso manto verde deu-se na partida amistosa, frente a equipe da Portuguesa de Desportos no dia 1º de Setembro no estádio do Pacaembu. Logo em sua estréia, Jair deixaria a sua marca, assinalando o primeiro gol esmeraldino, logo aos 15 minutos de jogo. Resultado final: PALMEIRAS  3 ( Jair, Lima e Washington )  x 1 Portuguesa.   
                No ano seguinte  seria convocado para defender a Seleção Brasileira, tanto para as partidas  preparatórias, como para a disputa da Copa do Mundo de 1950, a ser jogada no Brasil. Ficaria marcado, assim como todo o elenco canarinho, pela  fatídica derrota frente a equipe do Uruguai por 2 x 1 na final do Mundial, diante de quase 200 mil torcedores.  Talvez ainda triste pela  sofrida
derrota frente aos uruguaios, retornaria um  ano depois ao mesmo Maracanã, para desta vez triunfar, junto com toda a esquadra esmeraldina, na grande final do Mundial de Clubes ( Copa Rio ) contra a fortíssima equipe italiana da Juventus. Na primeira partida, vitória palmeirense por 1 x 0 ( Rodrigues ) e empate no segundo jogo por 2 x 2 ( Rodrigues e Liminha ).  O PALMEIRAS  e  Jair Rosa Pinto, sagram-se Campeões Mundial de Clubes. Mas meses antes o grande Jajá de Barra Mansa, seria protagonista de uma partida épica, que resultaria no título de Campeão Paulista do Ano  de 1950. 
               Portanto eu os convido a  voltarem comigo no tempo, mais precisamente no ano de 1951, Campeonato Paulista de 1950, que acabaria adentrando pelo ano seguinte. A referida competição, que teve o seu início no mês de Agosto, após uma disputa bastante acirrada entre o querido PALMEIRAS e o nosso maior inimigo, o São Paulo F.C, faltando 3 rodadas para o seu encerramento, todos davam como certo o tricampeonato para a equipe tricolor (o primeiro de sua história, perseguido até os dias atuais), pois este, encontrava-se na liderança do campeonato com 3 pontos de vantagem, sobre a nossa querida esquadra alviverde. Mas eis que o milagre de San Genaro, o Santo da apaixonada nação esmeraldina, se materializaria naquelas  últimas 3 rodadas.  Enquanto o nosso amado PALESTRA, vencera, por 1 x 0 e 3 x 0 respectivamente ao XV de Piracicaba e Portuguesa Santista, o mesmo não ocorrera com o nosso concorrente ao título paulista da temporada de 1950. Jogando com o Ypiranga e Santos, acabou sendo derrotado em ambas, pela contagem de 2 x 1.  Com isso, restando apenas uma rodada para o término do campeonato, a vantagem mudara de lado. Bastava um empate ao PALMEIRAS, para sagrar-se campeão paulista, conquistando com isso a segunda coroa ( a primeira, havia sido conquistada no  dia 6 de Agosto, a chamada Taça Cidade de São Paulo, com empate em 2 x 2, novamente contra eles, o São Paulo F.C. ). Como já conquistara o  referido torneio, se a esquadra alvi-esmeraldina, levantasse também o Paulista, seria a quebra de um tabu, pois jamais uma mesma equipe conquistara as duas competições na mesma temporada.
                Se a saga alviverde sempre foi repleta de partidas épicas e de jogos memoráveis,  não seria diferente no Paulista de 1950, pois  a última rodada dessa competição reservara o encontro entre o grande PALESTRA-PALMEIRAS e nosso inimigo histórico. Sim amigos, eles mesmos! O São Paulo F.C, o qual vinha rivalizando conosco toda a década anterior, desde 1943.
                 Chegamos portanto no dia 28 de Janeiro de 1951, última rodada do returno. Frente a frente os dois grandes rivais ( inimigos?) iriam decidir o título da temporada. Devido ao forte equilíbrio entre ambos, a partida tomou caráter de uma final de campeonato. Graças aos tropeços de nosso rival, jogaríamos por um simples empate para assegurarmos a conquista do título Paulista do Ano Santo. Mas o calendário marcara a histórica partida para o mês de Janeiro, que, como todos os moradores da  Paulicéia sabem, seguramente, é um mês caracterizado pelas fortes chuvas, que costumam castigar a grande metrópole paulistana. Portanto naquele dia 28, não seria diferente, pois um verdadeiro dilúvio desabou por toda a cidade e principalmente pelos lados do tradicional estádio da municipalidade, o Pacaembu. Nada que impediria a realização do tão esperado prélio.
         O nosso amado e querido PALMEIRAS, entrara em campo com a seguinte formação: Oberdan, Turcäo e Oswaldo; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Sarno; Lima, Canhotinho, Aquiles, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Pelo lado deles, destaque para: Mauro, Bauer , Rui, Noronha, Remo, Friaça e Teixeirinha. Seguindo uma determinação da Federação Paulista de Futebol, árbitros estrangeiros foram importados, para apitarem  algumas  partidas do campeonato. Com isso, fora  escalado para atuar nesta partida, o britânico Mr. Alwin Bradley.  Dar-se-ia portanto, naquela tarde chuvosa de domingo, a decisão do paulista de 1950 no encharcado e enlameado gramado do estádio do Pacaembu.
             Buscando a vitória a todo custo, pois o empate, somente a nós interessava, partiram com tudo pra cima da esquadra alviverde, e já aos 4 minutos de jogo, lograram êxito, assinalando 1 x 0, através do seu atleta Teixeirinha. O gol assinalado pela  equipe adversária logo no começo da partida, abalara o emocional do time palmeirense, que não conseguiu  encontrar-se na partida em todo o seu primeiro tempo, e que graças às grandes defesas de Oberdan Catani, a derrota pela contagem mínima, até que ficou de bom tamanho. Fim da primeira etapa, entraria em cena, a figura do grande Jair Rosa Pinto... Um detalhe, antes, deve ser abordado. O  espetacular Jair, correra o risco de nem mesmo disputar esta decisiva partida. Por que?  No dia 7 de Janeiro daquele ano, em partida válida pela mesma competição, o PALMEIRAS, acabou sendo derrotado pelo nosso maior rival ( Corinthians ) por 3 x 1; e o nosso técnico Ventura Cambom, que vivia às turras com  Jair, assim como fizera ao longo da competição, novamente resolve sacá-lo da equipe titular. Mas um jogo-treino contra o Valinhense, na cidade de Valinhos na semana da decisão, no qual o PALMEIRAS venceu pela a contagem de 8 x 3 e teve como destaque Jair Rosa Pinto, faz com que Cambon, mude de idéia e resolva relacioná-lo para a decisiva partida. O grande meia-armador Jair Rosa Pinto, adentra ao vestiário palmeirense, e aos berros, conclama uma reação por parte dos atletas alviverdes. Disse que nada nos derrotaria... nada nos tiraria o título, se simplesmente acreditassem, que a camisa que vestiam, jamais foi ou seria de um clube qualquer, mas sim, da grande, vitoriosa e gloriosa SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS.  
              A  nossa querida esquadra esmeraldina, retorna ao enlameado gramado do Pacaembu para a segunda etapa, determinada a buscar o empate, que nos garantiria o título da temporada de 1950. Uma verdadeira batalha ocorreu naqueles 45 minutos finais da refrega. Bola sendo disputada palmo a palmo... escorregões... empurrões... divididas... bolas sendo tiradas por ambas as defesas a esmo. Um partida que mais lembrada o antigo Calcio Fiorentino, de tempos  remotos, onde os contendores lutavam pela posse da bola até a morte. Até que aos 15 minutos da etapa complementar, o grande Jair Rosa Pinto apanha uma bola, ainda no meio campo, e sai driblando todo o time adversário, meio que na raça, meio que na técnica, que lhe era muito peculiar, e entrega a pelota ao atleta  esmeraldino Aquiles, este, desfere um tiro mortal à meta sãopaulina, vencendo finalmente o goleiro Mário. O tradicional estádio, e também toda uma cidade, toda uma nação, uma apaixonada nação alviverde, explode em alegria e emoção, pois poderia ser este o gol que decretaria o tão sonhado título paulista da temporada. Mas, ainda restaria mais 30 minutos de luta, ou seja, a batalha continuaria até os minutos finais. Mas em campo, um homem, um herói, um guerreiro, soube como passar aos outros guerreiros alviverdes, a garra, a gana, o espírito de luta, que seriam necessários nos derradeiros minutos. Soubemos segurar o ímpeto do adversário, e quando o arbitro britânico Alwin Bradley pede a bola, era o fim do sonho deles ( do tricampeonato ), e a consolidação de nosso sonhado titulo. Lágrimas, sejam dos atletas, como podemos verificar no festivo vestiário palmeirense ( Nestor, Jair e Oberdan ) sejam de nossa amada e apaixonada torcida alvi-esmeraldina, misturam-se com a chuva, que castigou o Pacaembu naquela histórica tarde. Campeão Paulista do Ano Santo de 1950 e conquista a Segunda coroa,  do total de Cinco, que haveríamos ainda de conquistar naquele ano de 1951. E torna-se a primeira equipe a conquistar o título de campeão Paulista e da Taça Cidade de São Paulo, na mesma temporada.
              Encerra-se portanto, mais um capitulo de nossa rica história. História repleta de partidas antológicas, batalhas épicas, de heróis anônimos ou não, assim como o nosso querido Jair Rosa Pinto, que numa histórica tarde, levou a nossa querida e amada SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS, a mais uma conquista, a mais uma taça para a nossa, já rica, sala de troféus, a sala das conquistas alviverdes. 

                Ao nosso querido Jair Rosa Pinto, assim como aos outros heróis desta épica partida, o nosso muito obrigado, de toda a APAIXONADA NAÇÃO ALVIVERDE.

Miro Moraes - 03/2006

 

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