JORGE MENDONÇA
Um discípulo de Ademir da Guia.

 

Partiu Jorge, nascido Pinto Mendonça, na distante Silva Jardim, interior fluminense, no dia 6 de Junho de 1954. O filho do Sr. Onofre Mendonça (pai de mais 5 filhos), só pensava em jogar futebol. Preocupado com o futuro de seu querido filho, o Sr. Onofre o matricula em um curso de contabilidade na vizinha Itaboraí, mas que Jorge logo abandona,  vindo a atuar na equipe local do União, pois acreditava ser o futebol a sua sina. Quisera o destino que o mesmo Bangu - que revelara ao mundo e ao nosso glorioso PALMEIRAS, o Divino Ademir da Guia - através do pai, do antigo e falecido patrono do clube (Castor de Andrade), o Sr. Eusébio de Andrade, o levasse para atuar no juvenil do clube de Moça Bonita, tradicional bairro do subúrbio carioca. Logo na primeira oportunidade atuando com a camisa do Bangu pelo Campeonato Carioca de Juvenis, deixa a sua marca, como que dizendo a que veio. Com apenas 18 anos, profissionaliza-se, permanecendo até o campeonato seguinte, no qual alcançaria a vice-artilharia do Campeonato Carioca de 1973 (ficando atrás somente de Dario com 15 gols). Graças às suas excelentes atuações e o seu faro de gol, desperta o interesse dos dirigentes do Clube Náutico Capibaribe, indo atuar por sua vez no ano de 1974, na equipe pernambucana. Logo em seu primeiro ano na equipe local, sagra-se, não só o artilheiro do certame com a marca de 24 gols (junto com Zé Carlos, do Santa Cruz), como também leva o Náutico à conquista do titulo pernambucano da temporada, quebrando com isso uma seqüência de 5 títulos consecutivos do rival Santa Cruz. No ano seguinte, leva o Náutico ao vice-campeonato. Acaba por chamar a atenção dos homens da SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS, que resolvem contratá-lo, junto com Vasconcelos, oferecendo ao clube pernambucano, os passes por empréstimo de Fedato, Toninho Vanusa e Mário.

Deixou-nos Jorge, o craque Mendonça, que aportara em nosso amado clube justamente no ano de 1976, que marcaria o último título do grande Ademir da Guia vestindo as nossas cores verde e branca. Também no ano de sua chegada, iniciava-se um período triste para a querida torcida palmeirense. Nossos craques, da Segunda Academia, começavam a deixar o querido clube de Palestra Itália. As despedidas iniciaram-se com o grande zagueiro (um dos maiores de nossa rica história) Luís Pereira e o fenomenal meia-direita (talvez o maior cabeceador de todos) Leivinha. Ambos foram mostrar aos espanhóis, mais precisamente do Atlético Madrid, os seus exuberantes futebóis. Isso marcaria, também, a despedida dos gramados de nosso magistral volante Dudu, que em seguida, daria início à carreira de treinador no próprio PALMEIRAS. Para tristeza ainda maior, o maior de todos, o fenomenal, o Divino Ademir da Guia, estava em vias de encerrar a sua longa e vitoriosa carreira vestindo a amada camisa da SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS. Fato este que viria a se consumar no ano seguinte, para infelicidade não somente de nós palmeirenses, mas de todos que apreciam o belo futebol, que certamente, Ademir sempre soube mostrar.  Jorge bem saberia da responsabilidade de, se não substituir os craques que estavam deixando o Parque Antártica, mas pelo menos amenizar a dor que tanto estava sentindo, a apaixonada torcida alviverde. A sua estréia com a camisa esmeraldina, deu-se em um amistoso em Franca, contra a Francana no dia 22 de Fevereiro de 1976, entrando no lugar do jogador Erb, que vencemos pela contagem mínima  de 1 x 0 (gol de Toninho “Catarina”).

De início, talvez não inspirasse total confiança, do então treinador Dino Sani. Este, ou o sacava no decorrer das partidas, ou iniciava com Jorge no banco, colocando-o no desenrolar dos jogos. Mas com a saída de Dino Sani e a entrada do novato Dudu, passa a ter mais oportunidades na equipe titular, e conseqüentemente, mais chances de mostrar a que veio. Também com a efetivação do centroavante Toninho, ambos viriam a fazer uma dupla perfeita, levando o pavor às defesas adversárias. Tanto é, que ambos acabam assinalando a maioria dos gols palmeirenses ao longo da temporada. Mas foi especificamente no campeonato Paulista daquele ano que Jorge Mendonça ficaria marcado, tanto nos corações alviverdes, como na rica história do PALMEIRAS. Pois no jogo decisivo diante da equipe do XV de Piracicaba (1 x 0) na penúltima rodada - em um Parque Antártica vivendo uma noite de gala, ou seja, recebendo, até hoje, o maior público de sua historia (40 mil torcedores) – assinala o gol que garantiria o título antecipado de campeão Paulista 76. Assim como também deixaria a sua marca na última rodada, no chamado jogo das faixas, diante de nosso rival (Corinthians), marcando por duas vezes, garantindo a vitória palmeirense pela contagem de 2 x 1.

Grandes atuações teve Jorge Mendonça, vestindo o nosso glorioso manto, pois poderia citar também uma outra grande partida, que certamente, teve como destaque este estupendo meia-direita. Trata-se do famoso jogo de 1979, que o PALMEIRAS, comandado, no banco e no campo por, respectivamente, Telê Santana e Jorge Mendonça, ousou calar mais de 100 mil vozes rubro-negras, no tradicional estádio do Maracanã, o talvez já conhecido “Maracanazzo dos garotos de Telê”. Com uma grande atuação, Jorge Mendonça, leva aqueles desacreditados (pela mídia local) e jovens jogadores palmeirenses a uma histórica vitória por 4 x 1, classificando o nosso querido PALMEIRAS, para a semifinal do Brasileiro de 79, diante do Inter-RS.  O grande Jorge, não só mostrou o belo futebol que todos conheciam, mas, talvez para calar os críticos que o provocavam, dizendo que fugia das divididas e não demonstrava raça, nesta épica partida, fora um verdadeiro “leão” em campo. E só para não fugir à regra, também deixou a sua marca, assinalando o primeiro gol da partida.

Foi-se Jorge, feito Mendonça, para nós palmeirenses, o grande maestro, o cerebral jogador, um verdadeiro seguidor do futebol fidalgo do grande Ademir da Guia. Como afirmara anteriormente, ficaria marcado pela mídia, assim como por alguns torcedores, como um jogador sem fibra, avesso às divididas, taxado de pipoqueiro. Mas em defesa do fenomenal Jorge, digo-lhe: “As mãos de um pianista não foram feitas para se empunhar uma marreta disposta a quebrar pedras, mas sim, dedilhar seu instrumento, e presentear, os ouvidos mais sensíveis, com lindas notas musicais”.  Portanto, os críticos deste estupendo meia-direita, penso que nunca deveriam cobrar-lhe que entrasse nas divididas em disputa de uma bola, pois esta, certamente, vinha aninhar-se aos seus habilidosos pés, para receber o carinho devido; certamente, o grande Jorge Mendonça, saberia tratá-la com destreza e maestria. Tal pecha (pipoqueiro), nascera em um desses programas esportivos, estilo debate-bola, em um intervalo entre um jogo e outro, na Copa do Mundo de 1978. Um conceituado jornalista levantou a questão, de que ele, Jorge, parecia que corria pra não chegar. Mas, na verdade, foi graças às suas grandes exibições, que barrara o grande jogador Zico (quase uma unanimidade naqueles idos), fazendo com que o então técnico da Seleção Brasileira, o falecido Cláudio Coutinho, optasse por escalar aquele jogador de pernas finas, mas de um futebol exuberante.

Jorge Mendonça iniciara a sua trajetória vestindo a camisa da Seleção Brasileira, no dia 10 de Abril de 1978 em um amistoso diante da equipe do Al Ahli (Arábia Saudita), com vitória brasileira por 6 x 1, e como sempre, Jorge deixaria a sua marca, assinalando um tento. Atuaria com a camisa verde e amarela, ainda por mais 10 oportunidades, sendo 6 delas, como já dissera, pela Copa do Mundo de 1978.  Infelizmente, o seu faro de artilheiro não se verificaria com a camisa da Seleção, pois nas 11 vezes que atuou, assinalou apenas 2 gols, (um diante do Al Ahli, como afirmara, e o outro, no amistoso ( 2 x 0 ) com o Atlético Madrid, no dia 28-04-78 na Espanha). Acredito que, no que considero um comentário infeliz desse grande jornalista, ficaria marcado ao retornar da Copa, tanto pela mídia, quanto pela torcida, fato é, que não voltaria mais a vestir a camisa canarinho. Os seus críticos, queriam ver de sua parte, mais determinação, mais raça, mais vontade, em detrimento do seu clássico e belo futebol. Mas sentindo-se incólume a essas críticas, continuou presenteando, os que apreciavam o seu talento, com grandes exibições.

                Injustiças a parte, Jorge Mendonça é até os dias atuais o detentor do recorde de único jogador a assinalar mais de 30 gols em um só Campeonato Paulista após a era Pelé. Foi no campeonato Paulista de 1981 que vestindo a camisa do Guarani F.C., assinalou nada mais, nada menos que 38 gols.              

                Eternizou-se Jorge, querido Mendonça, que no dia 17 de Fevereiro de 2006, partiu para sempre, para a sua longa jornada. Ele, que tanto dignificou o nosso sagrado manto verde e branco, conquistaria, entre os torcedores alviverdes,  a simpatia e a reverência ao seu belo futebol, até mesmo entre aqueles que não tiveram a felicidade de vê-lo jogar. Haja vista que, no dia de seu falecimento, recebo a ligação de um grande amigo meu - um jovem palmeirense, um dos maiores, que tive o prazer de conhecer um dia – que respeitosamente lamentava a perda de mais um ídolo palmeirense. Disse-me: “Poxa, perdemos Julinho (Botelho), Jair Rosa  Pinto, agora o Jorge Mendonça, estamos ficando órfãos daqueles nossos ídolos que tanto honraram a nossa gloriosa camisa”. Se naquele momento, não encontrei palavras para acalentar o seu triste coração, poderia hoje lhe dizer, que não fique triste. Vamos imaginar, que assim como Heitor, Julinho, Jair Rosa Pinto, agora o grande Jorge Mendonça, e tantos outros que se foram e ainda irão, na verdade, ao Céu foram chamados, para novamente, vestirem e dignificarem a nossa amada camisa verde e branca.

Pois, assim como na Terra, assim como no Céu, o nosso querido e amado PALMEIRAS NASCEU PARA SER ETERNO!!!!

 

Miro Moraes 03/04

 

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