Há 92 anos o “Big Bang” Alviverde
Segundo
afirmam alguns cientistas e especialistas em cosmologia, o universo que
conhecemos (na verdade uma ínfima parte dele) hoje, surgira há cerca de 13,7
bilhões de anos. O evento que ocasionou o surgimento deste, controvérsias à
parte, intitulou-se de Big Bang. Conhecido também como instante “zero”. Onde do
nada surgiu o todo, e o todo se fez do nada. Acredito que muitos estejam agora
se perguntando: O que isso tem a ver conosco, ou seja, com a história de nosso
amado PALESTRA-PALMEIRAS?
Brincando com as palavras, apenas quis fazer uma pequena analogia com o evento da criação do universo conhecido, e o surgimento da maior legenda do esporte mundial, a gloriosa SOCIETÀ PALESTRA-PALMEIRAS. Pois há 92 anos, mais precisamente no dia 24 de Janeiro de 1915, as 14 h 15’, deu-se o chamado “Big Bang” para uma apaixonada torcida. A querida NAÇÃO ALVIVERDE, presenciou o “instante zero” do surgimento, se não do Universo, com bilhões de galáxias e estrelas, mas de uma paixão, na verdade uma imensurável paixão dedicada a um clube de futebol.
Haviam-se passados mais de 4 meses desde a fundação da gloriosa SOCIETÀ SPORTIVA PALESTRA ITALIA, e podemos assim dizer, que praticamente pouco fizera-se, pouco realizara-se o nosso amado clube, seja no ponto de vista social, seja esportivo. Tudo isso em conseqüência de toda Europa (claro, a velha pátria daqueles palestrinos também) estar mergulhada em sangue, envolvida na Primeira Guerra Mundial. Esta eclodira justamente quando o querido PALESTRA surgira. Os recursos dos oriundos que já eram poucos se destinavam agora a ajudar famílias e parentes que haviam ficado na velha Península. A ajuda não se limitou só em dinheiro, mas também humana. Muitos atravessaram o Oceano de volta, para defender o solo da antiga Pátria. Dentre os quais, o então presidente palestrino Augusto Vaccari.
Mas mesmo diante desta situação, algo teria que ser feito para que o velho PALESTRA não corresse o risco de desaparecer, ou morrer ainda no ventre. E graças ao empenho de homens como: o presidente (ainda não havia partido) Augusto Vaccari; Felice Grecco; o secretário Luigi Cervo; Giangrande, De Vivo; entre outros, pensou-se em realizar dois grandes eventos, no intuito de apresentar de vez o PALESTRA ITALIA a população de São Paulo. O primeiro evento: Um magnífico baile no dia 9 de Janeiro, com presença de autoridades italianas e brasileiras, fez lugar no luxuoso salão do SC Germânia (atual Pinheiros). O PALESTRA finalmente debutava diante da sociedade paulistana.
Feita a apresentação de nossa SOCIETÀ no âmbito social, restava agora realizar aquilo que mais ansiava a gente palestrina. A concepção de forma oficial de um time de futebol exclusivamente italiano. Embora as dificuldades fossem muitas, o entusiasmo pela estréia no campo esportivo era maior. E graças iniciativas de homens como o grande Luigi Cervo, o tão aguardado prélio fora agendado para o dia 24 de Janeiro de 1915. O adversário escolhido foi o S C Savóia (representante da imensa colônia italiana da região), na época, uma fortíssima e quase imbatível esquadra, situada no distrito de Votorantim (próximo a Sorocaba).
Mas como afirmara anteriormente, as dificuldades financeiras eram grandes, e empreender uma viagem de quase 4 horas de trem, era, sem dúvida, muito dispendiosa. Mas, graças a sugestão do então diretor esportivo Tomazo Mauri, os distintivos em que o clube ganhara e estavam sendo vendidos aos sócios a 500 contos, poderiam os mesmos serem vendidos por Mil réis. Os 500 contos a mais conseguiriam pagar as despesas de cada atleta. Proposta aceita, o caixa do clube fez um adiantamento de 150 mil reis, para posterior ressarcimento. Chegamos finalmente o grande dia. Naquele domingo 24 de Janeiro de 1915, todos que empreenderiam tamanha jornada, assim como participariam de histórica partida, levantaram-se bem cedo, pois a viagem de trem até Sorocaba era “longa”. Relatos dão conta que entre dirigentes, atletas, familiares e parentes, foram ainda cerca de duas dúzias de torcedores palestrinos.
Dentre os atletas palestrinos, 5 merecem uma menção a parte: Bianco; Pollice; Alegretti; Fúlvio e Amílcar. Os mesmos eram atletas pertencentes ao nosso maior rival: o Corinthians. Acontece amigo, que devido o alvinegro ficar impossibilitado de disputar, tanto a competição da APEA como da LPF (ocorria uma cisão no seio do futebol paulista desde 1913) naquele ano de 1915, este liberou seus atletas para que os mesmos jogassem partidas amistosas por outras agremiações que desejassem. Como os cincos eram descendentes de italianos, decidiram participar e reforçar o primeiro quadro do PALESTRA ITÁLIA nesta épica partida. Obs: O grande Bianco apesar de atuar pelo rival, era até mesmo sócio de carteirinha de nosso amado clube. Fiz questão de fazer tal menção aos mesmos, pois queria demonstrar o porque de muitos acharem (erroneamente) ter sido o nosso querido PALESTRA nascido de uma “costela” corintiana. Não passa de crendice. Pois dos cinco, apenas Bianco e Amílcar voltariam a vestir a camisa esmeraldina regularmente. Alegretti (nunca mais vestiu); Pollice (apenas mais 2 vezes) e Fúlvio (só mais 1 vez vestiu nosso manto).
Chega-se finalmente em Sorocaba. Recepção digna de chefe de Estado ao querido
PALESTRA ITÁLIA. Entre autoridades locais, centenas de peninsulares e
descendentes receberam entusiasticamente a nossa amada SOCIETÀ. Após um suntuoso
almoço, todos rumam para Votorantim. Amigos, ao invés de relatar com minhas
palavras os fatos ocorridos no histórico jogo, se permitirem farei melhor:
Trarei, com prazer, a vocês, a narrativa original e na integra da época daquele
épico evento:
“UMA SOBERBA AFIRMAÇÃO
DO PALESTRA ITÁLIA”
Centenas de italianos se reúnem em Votorantim para saudar o quadro italiano
O GRANDE “MATCH”
“As 14h 15’ exatamente o árbitro sr. Lagreca apita o início do jogo. Os quadros estão assim constituídos: SC SAVOIA – Culbert; Ferreira I, Salvestrina; Gigi, Zecchi e Fredrich; Imparato I, Cardoso, Ferreira II, Imparato II e Pinho. SS PALESTRA ITÁLIA – Stillitano; Bonato e Fúlvio; Pollice, Bianco e Valle (cap.); Cavinato, Fiaschi, Alegretti, Amílcar e Ferré.”
“O 1º tempo se inicia com um ataque à vala do PALESTRA. Mas a audaz tentativa dos vermelhos é desfeita por Valle que devolve a pelota ao campo contrário.”
“Ataques e contra-ataques se sucedem vivamente e bem conduzidos. O público freme continuamente incitando os jogadores”.
“Bianco desenvolve um jogo maravilhoso. Após tirar habilmente a bola de Cardoso, tenta uma descida para o goal de Curbert, mas a poucos metros erra, mandando muito alto. Não foi apenas este o perigo passado pelo Savóia no 1º tempo. Por várias vezes a sorte o protegeu no exato momento em que o ponto parecia assegurado”.
“Termina o 1º tempo sem que houvesse abertura de contagem”.
“Na fase final os elementos do Savóia redobram de energia. Desenvolvem um jogo veloz, sem trégua, disciplinado”.
“Mas logo se mostram exaustos pela ação defensiva dos” tricolores“ que atuam de modo surpreendente”.
“De um momentâneo cansaço dos vermelhos se aproveitam os avantes adversários que se põem a alvejar o arco de Culbert”.
“Um goal ia sendo marcado, mas a defesa adversária prefere salvar como pode... cometendo pena máxima”.
“Bianco atira a bola como um bólido para as redes. É o primeiro ponto da partida. Os aplausos e a conquista do ponto animam os onze de Gambini que se esforçam por manter e aumentar a vantagem obtida”.
“Um minuto depois é marcado um segundo gol. Ferreira I na área penal comete uma falta, e o árbitro, atento e imparcial, pune inexoravelmente”.
“Já os palestrinos não se preocupam com a ofensiva, mantendo-se em calma e prudente defesa”. “O PALESTRA venceu assim por 2 a 0”.
“Observamos aqui que foi a primeira vez que o SC Savóia caiu vencido sem assinalar um ponto”.
“Quando o apito final do árbitro Lagreca - oficialmente indicado pela Associação Paulista – encerrou o memorável encontro que viu triunfar as cores do PALESTRA ITALIA, ‘hurrahs” frenéticos de júbilo se elevaram, partidos de centenas de italianos presentes”.
“Os valores vencedores foram agarrados, beijados, levados em triunfo para os vestiários. As manifestações prosseguiram, centuplicando de entusiasmo e provocando cenas cheias de patriotismo”.
“O vencido – o SC Savóia – digamos de passagem, não apresentou em campo um quadro italiano. Da formação do onze... é claramente demonstrado como entre os “onze” figuram os nomes de Culbert, Ferreira I, Ferreira II, Fredich, Cardoso e Pinho, os quais não são nossos compatriotas”.
“Registramos com viva satisfação o sucesso obtido pelo PALESTRA ITALIA nesta estréia, na qual se revelou sua excelente organização e os ótimos elementos que a compunham”.
Creio não ser preciso acrescentar mais nada, pois o texto acima explica por si só. Portanto neste dia 24 de Janeiro, a nossa amada NAÇÃO ALVIVERDE comemora no dia de hoje os 92 anos, do surgimento não de um time de futebol somente, mas de uma instituição: Exemplar, Pioneira, Impar, Gloriosa, por que não dizer uma verdadeira LEGENDA, não apenas em território Nacional, mas em todo o Mundo. E muito mais do que isso, não só do passado, nem tão pouco do presente, mas ETERNA; SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS.
Miro Moraes, janeiro de 2007