Choro verde

 

Sou Renan Ballarotti, de Curitiba, palmeirense desde criança por tradição de família, pois nunca fui de São Paulo...

 

Em 99, nas quartas de final contra o Corinthians, eu tinha 14 anos, e praticamente obriguei meu pai a me levar pra São Paulo ver o jogo...  Fomos e vimos o Palmeiras eliminar o Corinthians com direito a Dinei e Vampeta perdendo pênalti...  Infelizmente naquele ano não pude ver no estádio o verdão ganhar a Libertadores, porém festejei muito daqui de Curitiba mesmo...

 

Em 2000, o Palmeiras fazia campanha excelente na Libertadores também e após ver o momento que mais vibrei na minha vida, que foi o Marcelinho perder o pênalti naquela semi-final, novamente obriguei meu pai a me levar a São Paulo e ver a partida... dessa vez alugamos um ônibus, e fomos em 25 pessoas numa caravana de palmeirenses.

 

Na estrada já fazíamos a maior festa... em todos os postos que parávamos era uma bagunça só, e encontrávamos outros grupos de palmeirenses com o mesmo destino. Chegando lá, estávamos nas numeradas inferiores, bem em frente à merda do símbolo do São Paulo... A galera que estava atrás do gol, chacoalhava o alambrado, até que o cederam, e invadiram nossa área... Eu nunca fiquei tão apertado num estádio, todos em cima das cadeiras, formando duas filas onde havia espaço para só uma... Mal consegui ver o jogo, que foi muito sofrido contra o Boca Juniors... a torcida do verdão estava linda, com faixas e bandeiras por toda parte.. um espetáculo....

 

Porém, como todos sabem o jogo foi para os pênaltis, e deu no que deu. Quando o maldito cabeludo do Boca bateu o último, eu já estava chorando e quando ele fez, caí aos prantos. Nunca chorei tanto na minha vida, ainda criança que era, mas creio que se fosse hoje não seria diferente...

 

Meu primo maldito, que não ligava tanto pra futebol disse:  "Para de chorar Piá, o que você quer? Aparecer na TV chorando?"  (lembrando do outro garoto que no ano anterior ficou famoso ao aparecer em jogo contra o Flamengo na Copa do Brasil). E que boca santa... Saindo do estádio, entramos no ônibus, e as pessoas estavam ligando de Curitiba pra ver se eu tava tudo bem comigo, com uma preocupação excessiva. Eu estranhei muito até que me contaram que apareci na televisão chorando por cerca de quase 15 segundos, chegando ao ponto do Galvão Bueno comentar "chore mesmo garoto, a paixão pelo time é algo bonito

 

Mas que eu não estava nem aí, estava muito triste e ainda não acreditava naquilo. Chegando no hotel, quem eu encontro? A torcida do Boca comemorando o título no bar próximo a recepção. Meu sangue subiu a cabeça na hora, muita raiva, mas fazer o que?

 

No outro dia, após eu aparecer por vários momentos também no Globo Esporte, paramos ainda em São Paulo em um posto, não havia uma pessoa sequer que não viesse falar comigo sobre o jogo, dizendo que me viram na televisão... Vários corintianos disseram que ficaram emocionados ao ver aquilo. Na estrada na volta, paramos num posto muito, mas muito simples, que nem acreditava ter televisão lá... e a mesma coisa, todos comentaram sobre o jogo.

 

Estava ficando preocupado com aquilo e imaginando o que seria na escola a zoação... Minha mãe, achou aquilo lindo e sem que soubesse enviou e-mail para globo, dizendo que eu era de Curitiba, que tinha ido ver o jogo e apareci na transmissão do jogo. De repente, durante aquela semana quem me aparece na porta de casa? O carro da Globo, com o Rogério Tavares, repórter daqui para fazer uma matéria sobre aquilo... No fim, não sei se passou a reportagem em algum lugar, eu não vi e não consegui tape.

 

Após tudo isso, até hoje eu convivo. Por sete anos, muitas, mas muitas vezes pessoas me reconheceram por aquela cena, seja na rua em jogos do Palmeiras, onde for. E quando não me reconhecem meus amigos fazem questão de lembrar, não há um palmeirense que não se recorde. Inclusive, alguns de vocês ao lerem essa história poderão lembrar, do garoto loiro que apareceu chorando ao Final da Libertadores de 2000, no Morumbi.

 

Setembro, 2007

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