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"De sete em sete anos, a história se repete”, foi a frase que eu ouvi de um senhor de idade assim que coloquei o meu ingresso na catraca e terminei de subir a rampa C do Morumbi, mais conhecida como rampa dos setores azul e laranja. Naquele momento, eu parei e comecei a pensar no que acabara de ouvir. E, de fato, a frase fazia sentido. Afinal, sete anos antes, nós saímos de uma fila de 17 anos da forma mais gloriosa possível: sobre o maior rival e superando a desconfiança de tudo e de todos. O ano era 1993 e a torcida palmeirense sofria com o longo jejum de títulos. A imprensa nojenta fez de tudo para que o título ficasse com os gambás, mas nós fomos mais fortes e levamos a taça com uma goleada histórica: 4 a 0, para decepção da imprensa suja, que sempre está do lado dos gambás. Foi assim também em 1986, sete anos antes, quando o Palmeiras perdeu a primeira partida da semifinal do Paulistão para os gambás com um gol roubado de Cristóvão, mas reverteu o quadro com um inesquecível 3 a 0 no Morumbi, com direito a dois gols de Mirandinha e um gol olímpico de Éder. Apenas com isso, eu estava convencido de que a profecia iria se cumprir naquela noite. Mas a minha mente foi ainda mais longe e se lembrou de mais alguns “sete anos atrás”: em 1979, nós ganhamos do Flamengo do Telê Santana por 4 a 1, dentro do Maracanã, nas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro. Em 1972, nós tivemos um dos anos mais gloriosos da nossa história, com seis títulos conquistados. Isso para não falar em 1965, 1958 e 1951, quando fomos campeões mundiais contra a Juventus de Turim. Mas como eu dizia, a frase dita por aquele senhor me deu a certeza de que nós sairíamos com a vitória do Morumbi em mais uma noite fria do inverno de São Paulo. Assim que entrei no estádio para o meu 36o Palmeiras x gambás, eu temi ao ver que a grande maioria dos torcedores era dos fugitivos do Carandiru. Eu já tinha percebido pela movimentação do lado de fora que os caras seriam maioria. Aliás era de se esperar. Durante a semana, a imprensa suja e podre fez de tudo para que nós não estivéssemos lá. Isso veio desde o começo daquela Libertadores, quando os malditos jornalistas insinuavam que os gambás tinham o melhor time do Brasil. Nem parecia que eles chegaram àquela semifinal na base da sorte e da ajuda da arbitragem, como de fato aconteceu desde a primeira fase. Por isso, a imprensa suja passou a semana inteira falando que os gambás eram os finalistas e que aquele jogo seria para cumprimento de tabela. Pois bem, só faltava eles falarem que a torcida do Palmeiras não deveria ir ao Morumbi. Eles bem que tentaram, mas nós somos mais fortes. Nós somos guerreiros e não nos importamos com a opinião dos outros. O que importa é o Palmeiras. Acima de tudo. Aqui é Mancha. Nem mesmo a eliminação do Palmeiras na semifinal do Paulista no domingo anterior, com uma virada sofrida para o Santos nos últimos minutos, abalou o ânimo da torcida palmeirense, que confiava no peso da camisa alviverde contra aquele bando de defenestados, que mal sabem o que é uma competição internacional. Pois bem, contra tudo e contra todos, nós estávamos lá, guerreiros como sempre. Naquela noite fria de terça-feira, o Morumbi recebeu 62.837 pagantes, sendo que 40.000 eram gambás, e 22.000, palmeirenses. Isso era justificável pela campanha da imprensa suja e pela vitória da mundiça no primeiro jogo por 4 a 3, com dois gols de pura sorte, sendo um deles aos 45 minutos do segundo tempo. E, eis que começa o jogo e a “Fiel torcida” assiste calada à festa de uma torcida em minoria numérica, mas com o apoio de coisas que pesam demais na hora da decisão: camisa, história, tradição, raça, dignidade, fé, amor, e ,mais do que tudo, união. É ela quem nos dá o poder de ser. Enquanto nós cantávamos, os setores amarelo e vermelho do Morumbi assistiam a tudo calados. Eram 22.00 guerreiros contra 40.000 atônitos torcedores que não acreditavam no que estava acontecendo. O primeiro golpe veio com Euller, o Filho do Vento. Era o primeiro gol, que igualava o placar da disputa. A festa era verde. Foguetes, bandeiras, faixas, sinalizadores e, acima de tudo, 22.000 vozes ecoando no Morumbi. E a pergunta continua: quem é fiel? Começa o segundo tempo e o gordo chamado Luizão utiliza-se da sorte para marcar duas vezes em poucos minutos: Palmeiras 1 x 2 gambás. O sonho parecia acabado. Ao Palmeiras, faltavam mais dois gols para que a decisão fosse para os pênaltis. Parecia que toda aquela festa dos guerreiros havia sido em vão. A Fiel, que a imprensa tanto venera, cantou demais nesses minutos. Mas, como eu sempre digo, ela cantou no momento mais fácil e mais inútil. Em poucos minutos, os guerreiros verdes começam a cantar cada vez mais alto: “O Palmeiras é o time da virada, o Palmeiras é o time do amor, lê, lê, lê, ô, ô, ô.” Era um grito que aumentava a cada segundo até tomar conta de toda a torcida alviverde. Surpreendentemente, os tais fiéis se calam e não tiveram força para competir com os guerreiros alviverdes. Nós estávamos quase mortos, mas sabíamos que aquela era a hora de cantar, era o momento certo, era o momento em que o Palmeiras mais precisava de nós. E nós não falhamos nunca. Dentro de campo, o time sentiu aquela energia e partiu para cima dos gambás. Coube a Alex empatar a partida e deixar o Verdão a apenas um gol da final da mais uma Libertadores: a nossa quarta na história, com mais três de Mercosul. A energia dos guerreiros aumentou e coube ao maior dos guerreiros dentro de campo fazer o gol de uma das vitórias mais importantes, justas, lindas e emocionantes da história palmeirense. Um certo Galeano, tão criticado pelos “especialistas” torcedores rivais, apareceu no meio de um monte de gambás e desviou uma bola cruzada da direita. Havia muita gente no caminho até o gol. Mas ela tinha de entrar. A torcida entrou em campo e empurrou a bola para o fundo do gol do maldito Dida. Foi um gol chorado, histórico, que levou ao êxtase todos os guerreiros. Nós havíamos conseguido. Vencemos aqueles que a imprensa suja colocava como o maior time do mundo. Vencemos a maioria do estádio, vencemos os jornalistas podres e quem mais estivesse na nossa frente. A camisa alviverde buscou aquela vitória: Palmeiras 3 x 2 gambás. E, pelo segundo ano consecutivo, os pênaltis decidiriam o vencedor. De um lado, onze guerreiros e um técnico que coloca em suas equipes o verdadeiro espírito do futebol; o espírito de uma guerra, dentro do campo. Do outro, um time com bons jogadores, liderado por um ser das trevas chamado Marcelinho. Um sujeito que reúne todas as qualidades negativas de uma pessoa. Aquele era o dia em que ele teria de pagar por todos os seus pecados. Ah, e no banco de reserva dos gambás, um sujeito pacífico, que gosta de ouvir ópera nas horas vagas (????). Na hora dos pênaltis, os gambás pareciam se lembrar do pesadelo de 1999. Aquilo era um peso do tamanho do Morumbi. A torcida do Palmeiras fez uma festa das mais inesquecíveis. Na hora das cobranças, todos ajoelhados e formando uma corrente. Foram nove cobranças convertidas: Palmeiras 5 x 4 gambás. Foi então que chegou a vez do ser das trevas. E, naquele momento, ele sentiu todo o peso do Morumbi caindo em cima dele. São Marcos caiu para fazer a defesa e explodir a festa nos setores azul e laranja. Do lado do Carandiru, todos sangravam. Pela segunda vez seguida, eles conheceram a força do Palmeiras, a força da tradição italiana. Eles sentiram que não se deve brincar com uma camisa tão pesada. A festa palmeirense foi de desabafo, de ódio, de felicidade, de recompensa... eram guerreiros que venceram uma batalha na qual só eles acreditavam. A imprensa podre lamentava a vitória alviverde. A festa era só nossa. Ninguém mais tinha o direito de participar dela. A vaga na final era nossa. Para os gambás, aquele foi apenas o começo de uma série de 10 derrotas consecutivas e de quase dez meses de terror. A pior parte já passou para os gambás, que comemoram mais um título paulista. Mal sabem eles que a cicatriz do dia 6 de junho de 2000 jamais será esquecida. Aquilo é eterno. Quem estava no Morumbi, sabe o que eu estou falando. Foram dois anos seguidos, duas cicatrizes eternas. Os gambás, nunca se esquecerão do dia 6 de junho de 2000. A história se cumpriu, mais uma vez. Até 2007, quando mais sete anos passarem. Até lá, teremos muitas outras vitórias. Os gambás, também, terão vitórias. Mas nenhuma delas irá tirar a cicatriz que aquela terça-feira à noite deixou na marginal sem número. Esse é apenas o primeiro aniversário dessa cicatriz eterna. É bom os gambás se acostumarem.
Até 2007, 2014, 2021.... |
Autor: Rodrigo Barneschi