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Decadência? Só para os rivais
As dificuldades pelas quais passa o Palmeiras fazem muita gente afirmar
apressadamente de que se trata de um clube decadente. Se isso é verdade, o
Palmeiras é um clube decadente há mais de 50 anos. O curioso é que esse
clube decadente ressurge sempre de sua própria queda para atravessar o
caminho dos outros e ganhar títulos, campeonatos, torneios, o diabo.
É claro que a fase atual é mais difícil porque, na verdade, o clube é parte
de um futebol que como um todo atravessa um período terrível. É difícil,
portanto, distinguir a alegada decadência do Palmeiras de uma decadência
mais geral que assola todos os clubes brasileiros e que se manifesta
principalmente pela total impossibilidade de manter qualquer jogador jogando
dentro do País por mais de um ano. Donde se conclui que os clubes, por sua
vez, pertencem a um país que, apesar da retórica oficial, despencou
tremendamente no confronto com países mais adiantados. Desse modo há uma
situação geral muito complicada da qual o futebol é parte.
Mas deixemos isso um pouco de lado, fingindo que essas dificuldades não
existem, e voltemos ao caso do Palmeiras.
Um dos motivos da alegada decadência é o fato de que jogadores como
Carlinhos Bala, Kléber, Alex Mineiro, Dênis Marques, etc., preferiram outros
clubes ao Palmeiras. Eu pergunto: E daí? Quem é essa gente? Com o devido
perdão a esses boleiros, eles não representam grande coisa no futebol, de
outro modo não estariam por aqui. Recebem alguma atenção pela pobreza geral,
pela indigência do futebol brasileiro atual. Qual a diferença entre eles e
Rodrigão, que aceitou a proposta do clube? Nenhuma. Infelizmente o futebol
está reduzido a esses nomes, a essa ninguenzada, como diria Darcy Ribeiro.
Tanto faz tê-los ou não tê-los. Como tanto faz que um jogador como Florentin
tenha ido embora, ou mesmo Paulo Baier. A única preocupação quando saem é
que não sejam substituídos por alguém ainda pior.
Ficam como outros “sintomas” da decadência a falta de títulos nos anos
recentes. Os apressados tomam por decadência, porém, algo que faz parte da
essência do Palmeiras. De quando em quando na sua história há escassez de
títulos. De 1950 a 1959 o time amargou fila. Depois houve o período de 16
anos também sem título. Isso, portanto, não é novidade na história do clube.
Regularidade e racionalidade nunca foram o forte do Palmeiras, um clube que
insiste em transitar perigosamente entre a glória e o abismo. Quem torce
para o Palmeiras aprende desde cedo que tudo pode acontecer. Ao Parque
Antártica se vai preparado para o melhor e para o pior.
Sempre foi assim e sempre será. Não há sentimentos mornos, medianos,
plácidos, reservados aos torcedores desse time. Ou se comemora uma vitória
épica ou se lamenta uma derrota catastrófica. É isso. Quem não quiser que
torça para outros clubes sensatos , organizados e previsíveis, preocupados
em não perder. O Palmeiras sabe que a derrota é parte da grandeza.
Por isso não vejo decadência alguma. O Palmeiras de hoje é igual ao que
sempre foi. Atravessando mais um período particularmente negro, lambendo em
silêncio suas feridas, mas certo de que subitamente, inesperadamente, de
algum modo vai ressurgir como tantas vezes antes, para continuar a ser o
espinho atravessado na garganta de todos os times do Brasil.
O século é longo e ainda mal começou.
Autor: Ugo Giorgetti para o Estado de São Paulo
julho de 2007.
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